Sabrina Noivas 78 - Shane's Bride
 
Richard Walker no queria ter filhos...E Hope Franklin o amava muito para prend-lo a uma famlia que ele no desejava ter. Ento, rompeu o noivado e partiu, levando consigo um segredo. Quatro anos mais tarde, Hope retornou para fazer a Richard uma pergunta crucial: estaria ele preparado para ser pai?
At encontrar seu filho, Richard no perdoara Hope por abandon-lo. Agora, ela retornara, mais bonita do que nunca, justificando que partira porque o amava demais. Richard no estava certo das intenes dela, mas precisava fazer algo para proteger seu filho. At se casar com a mulher na qual no poderia confiar novamente!

Digitalizao e correo: Nina


Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1998
Publicao original: 1996
Gnero: Romance histrico contemporneo
 Estado da Obra: Corrigida


Srie Darling Daddies
Ordem	Ttulo	Ebooks	Data
1	Adam's Vow
Julia 869 - Iluso De Amor	Apr-1995

2	Always Daddy
	Sep-1995

3	Shane's Bride
Sabrina Noivas 78 - O Preo De Um Erro	Jan-1996




 










PRLOGO

Hope, enfim, chegara em casa. .No sabia como agir diante da nova descoberta. Seu corao batia descompassado e o medo crescia a cada degrau que percorria lentamente, como se quisesse adiar o confronto com o homem que tanto amava.
Durante vinte anos habitara aquela casa e nunca sentira receio de entrar nela. Mas naquele dia seria diferente.
A reao de Richard diante da notcia de que seria pai novamente era imprevisvel.
Aquele filho era o fruto de uma nica noite de amor, a noite em que Richard contara a Hope sobre seu passado, sobre seus medos e os problemas enfrentados com a perda da mulher e do filho. Ele jurara que tal ato no se repetiria at que estivessem unidos perante os olhos de Deus.
Apesar de adorar crianas, ela concordara em no t-las, pois amava Richard e faria de tudo para estar a seu lado.
Richard fora uma pessoa muito infeliz, mas em vez de se tornar arrogante tornou-se forte e fechado.
Durante os quatro meses que estavam juntos, Hope tentou lhe mostrar que poderia confiar nela para tudo. Ela sabia que era amada por ele, mas sua dvida era saber se esse amor seria suficiente para que aceitasse a criana.
Ela esperava que algum dia ele mudasse de ideia, e ento poderiam ter filhos; afinal, Hope presenciara seu trabalho com adolescentes no Centro Comunitrio e sabia que ele seria um pai excelente.
Toda sexta-feira Richard lhe trazia uma rosa significando mais uma semana de unio. Ela as guardava dentro do seu livro preterido. J se acumulavam quatorze rosas. Eram pequenas atitudes que considerava demasiadamente importantes para o relacionamento. A mais nova das rosas ainda estava em um vaso no seu quarto.
Enfrentando seu medo, abriu a porta. Ouviu vozes que vinham da cozinha, e as identificou como sendo de Richard e de sua me. Rapidamente retirou sua jaqueta e guardou-a no armrio. Imaginou uma maneira de conversar em particular com Richard sem despertar a curiosidade de sua me. Talvez pudesse utilizar a desculpa de que queria mostrar a ele o lindo pr-de-sol naquela bela tarde de novembro. Ou ento poderia esperar para contar a novidade depois do jantar. Quem sabe at poderiam ir a Malibu...
	Sra. Franklin, sua carne assada poderia ganhar um prmio!
 Pelo tom de voz de Richard percebia-se que ele estava brincando, mas ao mesmo tempo elogiando a mulher com quem conversava.
Jennie Franklin riu.
	Voc pode afirmar s sentindo o aroma? Acho que s diz isso porque no comeu direito durante o dia. E a propsito, me chame de Jennie, afinal serei sua sogra a partir deste fim de semana.
Houve uma pausa.
	Gostei da ideia  respondeu o futuro genro de Jennie.
Hope entendeu a maneira com que Richard falara com sua me. Como ele perdera a sua, valorizava a me de sua noiva.
	Richard, preciso conversar com voc antes que Hope chegue.
	H algo de errado?
	Hope me disse que voc no quer filhos.    O tom de voz de Jennie era suave e tranquilo.
	Exato  respondeu Richard aps alguns segundos de silncio.
. Voc sabe que Hope adora crianas. Por trs anos trabalhou em um berrio. Eu disse a ela que preferia que ela cursasse a faculdade em perodo integral em vez de faz-lo por meio perodo, mas ela insiste que no, afirma que o berrio lhe dar mais experincia para trabalhar com os pequenos. Prefere isso a ter o diploma em menos tempo. Ela gosta de trabalhar com crianas. Ela faz por amor, e no por dinheiro.
A casa ficou em silncio enquanto Jennie esperava por uma resposta de Richard.
	Acreditamos que nosso amor seja suficiente, Jennie.
	O amor de ambos precisa ser maior que os dois, Richard.
	A senr ser vulnervel para ningum. Tudo consequncia de ter trabalhado como investigador na perda de seu filho.
	Cresci em meios de projetos.
	Hope me contou. Pensei que tinha algo a ver com sua vontade de se tornar um policial. Mas ela no me disse a razo de voc haver desistido da profisso e se tornado um detetive particular.
	Tornei-me um policial porque pensei que poderia fazer justia, mudar algo no mundo em que vivo. Mas era impossvel, Jennie. Trabalhei como louco durante oito anos e no consegui mudar coisa alguma. No acreditaria na misria que presenciei. Um dia essa misria me tocou.
	O que aconteceu?  indagou a sra. Franklin.
	Eu era casado. Minha mulher e eu tnhamos um filho de seis anos, Davie. Trabalhava de noite para poder passar o dia em casa. Certa vez os dois resolveram alugar um filme, e como meu carro estava atrs do dela resolveu ir com ele. O pequeno correu para entrar no carro. E, quando entrou, o veculo explodiu. No podamos fazer nada. Algum pusera uma bomba... que matou a pessoa errada... e a culpa era minha. Minha mulher me culpava tambm, e nosso casamento acabou.
	Richard, sinto muito.
	No colocarei outra criana no mundo sabendo que no poderei proteg-la. Nunca irei superar o que aconteceu com Davie.
Entende por que no posso passar por tudo aquilo de novo?
Hope encostou-se no armrio. Ela sabia que o sofrimento de Richard era enorme, mas tinha esperana que o casamento pudesse cur-lo. Mas tambm tinha conscincia de que, se ele no estivesse preparado para superar sua dor, iria lutar contra ela. Hope fora ingnua ao pensar que a notcia da gravidez pudesse ser bem-vinda. Richard fora honesto com relao a seus sentimentos. Agora, Hope vinha lhe dar a nica notcia que Richard no estava preparado para receber. O que seria do relacionamento deles dali em diante?
Se contasse a Richard sobre o beb, sabia que ele casaria com ela porque era um homem de palavra. Mas que tipo de casamento seria o deles?
Seus olhos encheram-se de lgrimas. Seria um casamento que traria de volta memrias do passado. Richard no poderia am-la, nem  criana, com o passado atormentando sua mente.
Seu amor por ele no era suficiente para suportar tal situao. Mesmo assim Hope tinha que tentar. Limpou seu rosto e entrou na cozinha.
	Ol  cumprimentou Richard e abraou-a.  Estava preocupado. Ficou presa no trabalho?
	No, mas preciso conversar com voc. Vamos para a sala.
	Mas sua me j preparou o jantar.
Jennie Franklin olhou para ambos e viu que se tratava de um assunto importante.
	Tudo bem  disse.  Posso manter a comida quente.
Richard pegou a mo de Hope e a acompanhou at o sof. Uma vez sentados, tomou-a em seus braos e a beijou.
	Richard, preciso perguntar algo a voc.  Inconscientemente ps sua mo sob sua barriga.  Acha que algum dia mudar de ideia sobre ter filhos?
	Hope...  O brilho em seu olhos desapareceu.
	Eu quero filhos seus. E preciso... ter um filho. Para ter certeza de que nosso amor ser completo. Para me realizar como mulher.
 Uma pequena esperana surgiu em seu corao.
	Mas ns tnhamos um acordo.
	Eu sei, mas no posso cumpri-lo.
Naquele momento percebeu que no daria para seguir em frente. Percebeu a extenso do sofrimento de Richard, a dor que sentia pela perda de seu filho.
Richard afastou-se. Quando olhou para Hope novamente, ela no pde ver mais nada a no ser seus olhos castanhos. Ele criara uma barreira entre eles.
	O que est tentando me dizer?
Hope sentiu que seu corao se partia, que nunca mais voltaria a ser o mesmo. Ela amava Richard demais para prend-lo.
	Que preciso de um filho seu, e se realmente no pode me dar um, ento no posso casar com voc.
	Hope...  ele pronunciou seu nome com tanto sofrimento! Toda emoo foi embora.  Est terminando nosso noivado?
	Richard, tenho de fazer isso. Tenho que pensar no futuro.
	No consigo imagin-la grvida. No quero nem mesmo pensar na preocupao diria que teria em saber se voc e a criana
estariam bem... Pior o meu sentimento de impotncia de no poder proteg-los. Se quer filhos, ento est certa em desmarcar nosso casamento. Diga  sua me que no ficarei para jantar. Diga-lhe tudo o que precisar.
	Richard, no pode sair assim, podemos conversar.
Richard Walker no mais olhou-a, e nem ao menos se despediu. Simplesmente saiu pela porta.

CAPITULO I

Quatro anos depois...

A neblina fora companhia inseparvel enquanto lope Franklin caminhava ao redor da casa.
Sentada na cadeira de balano, tinha nas mos um par de agulhas de tric. Fitava-as sem saber o que fazer com elas. A seu lado, o pequeno ba guardava uma blusa inacabada. Era o presente de Natal que Jennie Franklin daria a seu querido neto.
Natal... O que era para ser uma ocasio de festas e reencontros agora no passava de uma triste data.
Durante o primeiro ano de vida de Christopher, Hope tivera a certeza de ter tomado a deciso correta. Ocultar de Richard a gravidez inesperada parecia ser a soluo para todos os seus problemas. Tinha plena convico de que o tempo se encarregaria de apagar o amor e as lembranas do passado. S no contava que o filho seria o reflexo de Richard: o sorriso e os mesmos olhos castanhos faziam-na pensar nele com frequncia. E no segundo ano, Chris comeara a ter conscincia do mundo, questionar sobre a vida, sobre a famlia, e sua angstia aumentava a cada dia.
Nas visitas que fazia  me, Hope pensava em ligar para o pai de seu filho, mas uma fora oculta a impedia de faz-lo.
Havia um ms, o berrio onde trabalhava enviara-lhe um comunicado informando seu fechamento em breve, o que significava que estava desempregada. Era o que bastava para que ela tomasse a deciso de voltar a morar com a me.
Sem perder tempo, comeou a procurar emprego em Los Angeles, mas a sorte a abandonara novamente. Um telefonema de sua tia informando a morte de Jennie fora o suficiente para arruinar sua vida.
O fato a fez repensar na existncia do prprio filho. Uma simples ligao daria o direito a ambos de se conhecerem. E ela no poderia impedir que o filho conhecesse o pai. Mesmo por que, mais cedo ou mais tarde, o pequeno perguntaria por ele.
O barulho da campainha sobressaltou-a. Talvez fosse sua tia Eloise, pois ela se oferecera para cuidar de Christopher enquanto Hope guardasse os pertences da me. Em pouco tempo deveria deixar a casa onde fora criada e passara sua feliz infncia.
Ao abrir a porta, deparou com um rapaz de uniforme verde.
	Eloise Murray me disse que poderia encontrar Hope Franklin neste endereo  ele comeou.  Tenho uma encomenda para ela.
	Eu sou Hope Franklin.
	Assine aqui, por favor.  Ele apontou para uma linha pontilhada.
Hopep fechou a porta sem antes agradecer a presteza do rapaz. Conferiu o remetente e descobriu tratar-se do advogado de sua me. Conhecera-o quando o pai falecera.
Abrindo o envelope, encontrou uma carta fechada e um pequeno bilhete.
Querida srta. Franklin:
Sua me instruiu-me para lhe entregar esta carta quando morresse. Logo marcarei a data para lermos seu testamento. Minhas sinceras condolncias.
George Gunthry
Com as mos trmulas, mal conseguiu abrir o envelope menor.
Querida Hope,
A vida no ser fcil para voc, assim como no foi para mim. Mas certamente ter foras para reagir e suportar a dor da pei-da. Como ltimo desejo, gostaria que entregasse o relgio de ouro de seu pai a Richard. Est guardado em meu porta-jias, ningum sabe disso. Gostaria que fosse um assunto tratado apenas entre vocs dois. Pense em seus desejos e nos de nosso pequeno Christopher.
Hope, mame te ama muito. Tudo o que sempre quis foi a sua felicidade.
Um beijo carinhoso.
Jennie
Talvez fosse o momento da verdade, pensou. Seria a hora de Richard decidir se queria participar da vida do filho ou no.
Naquela tarde de quarta-feira, o sol escaldante de setembro ardia sobre os ombros de Hope, que estava em frente  casa de Richard. Esperava que l ainda estivesse aberto o escritrio onde ele trabalhava. Seu nervosismo crescia a cada segundo que passava. Pensamentos diversos vieram-lhe  mente. Estaria casado? Teria mais filhos?
Quando finalmente teve coragem e apertou a campainha, uma jovem loira, de cabelos curtos, abriu a porta com um sorriso simptico. Sem palavras, ficou paralisada por interminveis segundos.
	Posso ajud-la?  perguntou a moa, enquanto observava o olhar espantado de Hope.
	Estou procurando por Richard Walker. Por acaso seria... a sra. Walker?
	No  respondeu, estendendo a mo.  Apenas trabalho com ele. Sou Jane Parker, muito prazer.
Hope cumprimentou-a visivelmente aliviada. E a seguiu assim que o caminho foi indicado.
Jane pediu que entrasse no escritrio. Seu corao comeou a bater mais forte no peito.
Richard estava de costas, com uma criana no colo, perto da janela.
	Acho que est nascendo mais um dente na boca de Matheus  ele falou, pensando que sua assistente estivesse perto da porta.
Mas, ao se virar, a surpresa fora recproca.
Hope cortara os cabelos logo aps o nascimento do filho, evidenciando seu rosto delicado, e a vida agitada ajudou-a a manter o corpo em forma. Mas Richard tambm mudara muito. Os cabelos agora tinham um tamanho incomum, beirando os ombros. O corpo atltico continuava o mesmo, mas as feies acentuadas por pequenas rugas ao redor dos olhos no a encorajavam a se aproximar.
De repente, o beb o abraou, e ele instintivamente comeou a acariciar as pequeninas costas, desviando sua ateno de Hope.
	Acho que sua me tem planos para voc  Richard comentou.
	 hora de ir para casa, meu beb.  Jane tomou o filho nos braos e voltou-se para Richard:  Ligue-me se tiver alguma dvida a respeito do relatrio qe fiz. At amanh.
A ss, os olhares se cruzaram diversas vezes.
Ele ofereceu uma cadeira para Hope se sentar. Nada conseguia diminuir o constrangimento de ambos, at que ela se disps a quebrar o gelo:
	Jane trabalha com voc?
	Sim.
	Ela sempre traz o nen para o trabalho?
	s vezes.
	Quantos anos tem... Matheus?
	Quinze meses.  Surpreendentemente, um leve sorriso curvou os lbios dele, deixando o ambiente menos tenso.
	 seu filho?  ela perguntou, arrependendo-se logo em seguida.
	Jane  casada com um amigo meu. O filho  deles.
	No me julgue mal, mas fiquei surpresa ao v-lo segurar um beb no colo  Hope se apressou em dizer.
	Nunca disse que no gostava de crianas.
O silncio tomou conta da sala. O comentrio trouxera  tona um dos motivos da separao. Era uma ferida que nunca cicatrizaria.
	O que est fazendo aqui, Hope?
Havia muito tempo, ele erguera uma barreira entre ambos que, aparentemente, no seria derrubada to cedo. Hope concluiu que se quisesse manter um dilogo pacfico com Richard teria de ter muita pacincia.
	Minha me faleceu h duas semanas  ela comeou a explicar, tentando conter as lgrimas que ameaavam rolar pelas faces.
	Sinto muito. Sei o quanto ela significava para voc.  Ao menos agora o ex-noivo demonstrava um pouco de sensibilidade.
E ele tinha razo, pois Hope mantivera com ele um relacionamento franco, sem segredos. Pelos menos at engravidar.
	Estou na casa de minha tia Eloisa  continuou Hope.
	Como sua tia est aceitando a situao?
	Est sendo muito difcil para ela  ela respondeu.  Como tambm sabe, as duas eram muito unidas.
	Sinto muito por voc, mas no seria mais fcil se tivesse me mandado uma carta ou telefonado?  A presena de Hope ainda era uma incgnita para ele.  Por que veio pessoalmente?
	Porque minha me me fez um ltimo pedido antes de partir. Jeannie gostaria que ficasse com um antigo relgio de papai.
Alguns segundos se passaram antes que Richard pudesse entender o derradeiro desejo.
	Bem, no h uma explicao...  Hope tambm no sabia como justificar tal pedido.  O fato  que ela gostava muito de voc, e eu apreciaria se pudesse atend-la.
Havia muitos erros do passado, Hope sabia, mas nada poderia fazer para consert-los. O tempo no voltaria, e o melhor que tinha a fazer era deix-lo a par da existncia do filho.
	Gostaria que passasse em casa para buscar o que lhe pertence  pediu, enfim.
Richard parecia surpreso, mas no declinou do convite.
	Est bem.
Hope suspirou, aliviada, pois temia que ele se recusasse a v-la novamente.
A despedida no passou de breves palavras, o que para ela no foi surpresa. Nenhum dos dois estava preparado para aquele encontro.
Quando ela se aproximou do porto que dava para a rua, Richard no se conteve.
	Hope!
Ela virou-se.
	Bem...  Ele tinha a voz trmula.  No se preocupe em preparar algo, pois no poderei ficar muito tempo l. Tenho outro compromisso  tarde.
	Oh, sim...
Ao ver o desapontamento em seus olhos, Richard se arrependeu de suas palavras. Fora um tolo, teria sido melhor se tivesse ficado calado.
Mas estava muito nervoso para no se manifestar. No esperava encontr-la novamente. Hope definitivamente fazia parte de seu passado, que ele no queria recordar. Mas no podia negar que a saudade o atormentava de tempos em tempos, nunca a esquecera. Mesmo no admitindo, queria ter notcias dela, saber se estava casada ou algo assim.
Porm, nunca a perdoara pelo sofrimento por que o fizera passar. Richard fora perdidamente apaixonado por ela, e sem explicaes, Hope partira de sua vida, deixando-o s com suas lembranas. Era verdade que muito discutiram sobre famlia, casamento e filhos, mas ele ainda no estava preparado para assumir algo que considerava to importante na vida de um homem. Achava que o amor que nutria por ela era o suficiente, mas estava enganado. Hope parecia querer mais, o que ele no podia dar.
E agora, ao reencontr-la aps quatro anos, as dvidas pairavam no ar novamente. Hope estava mais bela do que antes. Apenas os belos olhos azuis, que antes transmitiam alegria de viver, pareciam um pouco apagados. Bem, mas por que se preocuparia com os sentimentos dela? Aps o encontro do dia seguinte, cada um seguiria seu rumo, como acontecera naqueles ltimos anos.
Subir os degraus lentamente da casa de Jennie Franklin fez com que Richard se lembrasse da ltima vez que estivera l, a noite em que Hope rompera com tudo.
A noite insone que passara foi a prova que tivera para saber que a ex-noiva ainda morava em.seu corao. Bastava sentir a fragrncia de seu perfume para que a memria conspirasse contra sua razo.
Ao soar da campainha, a porta fora imediatamente aberta. Hope no escondia a ansiedade em seu olhar. Apesar de vestir um mo-ltom azul-marinho, que a deixava bem  vontade, o corpo esbelto podia ser identificado por baixo do tecido. Richard adorava os antigos cabelos longos dela, mas no podia negar que agora, curtos, davam-lhe um ar brejeiro e ao mesmo tempo sensual.
	Entre  ela convidou.
A voz suave de Hope era inconfundvel, ele pensou.
	No posso demorar.
Dirigiram-se mudos at a sala, onde ela lhe entregou uma caixa.
	Isto  o que mame queria lhe dar  disse, enquanto ele olhava para a embalagem.
Em uma frao de segundo, os quatro anos que os separaram pareciam no ter existido. Pelo corpo de Richard percorreu uma energia que o transportou para a inesquecvel noite em que fizeram amor.
Ao abrir a caixa, os olhos dele se arregalaram diante do belssimo relgio de ouro, que pertencera ao pai de Hope.
	Hope, no sei o que dizer, apenas no posso aceit-lo.
	Por favor, no diga nada. Simplesmente aceite-o. Mame provavelmente tinha uma boa razo para lhe oferecer algo to valioso.
Quando poderia supor que Hope entraria novamente em sua vida de forma to trgica?
A voz splice da ex-noiva deixava-o constrangido, pois sabia que naquele momento no poderia fazer muito por ela.
	Estava morando em Wasco quando ela faleceu. Um ataque cardaco fulminante foi a causa de sua morte. Ento, no tive oportunidade de falar com ela uma ltima vez, o que me deixa muito mais triste.
	Hope?
Ela uniu foras para continuar a falar:
	Quando soube de sua morte, o fato me fez repensar em minha prpria vida, nas decises que tomei no passado e que tm muito a ver com voc.
Ele a fitou sem saber o que esperar das prximas palavras, e seu olhar no se desviou dela por um segundo sequer.
	Continue  pediu Richard.
	Na poca pensei que seria a melhor coisa a fazer, mas com a morte de minha mae percebi que estava errada e que tinha de lhe contar.
	Contar o qu?
	Richard... voc...  Como lhe contar a verdade sem choc-lo? Tal notcia teria um forte impacto sobre ele, fossem quais fossem as palavras que usasse.  Voc tem um filho. Soube disso quando rompi o noivado.
Um abismo parecia ter-se formado ente eles. O baque fora maior que o esperado.
Hope esfregava as mos em um gesto de puro nervosismo. Como ele no esboara reao, ela se adiantou em explicar:
	Fiquei com medo de contar, pois voc no queria se casar comigo, muito menos ter filhos.
	Hope, nem sei o que dizer. Se pelo menos eu tivesse tido a vantagem da opo...
	Desculpe-me, mas no queria que sua deciso fosse baseada em culpa. Decerto sua responsabilidade falaria mais alto que seus sentimentos e isso no seria bom para ns trs.
Como Hope podia ser to racional com um fato to importante?, pensou. Confiara seus sentimentos mais profundos quela que havia sido a mulher mais importante de sua vida, e ela o trara amargamente. Fria corria-lhe pelas veias.
	Hope, o que fez foi imperdovel!  Colrico, Richard no conseguia achar as palavras apropriadas para expressar sua raiva.
 No tinha o direito de mentir e tomar a deciso de forma unilateral.
	Mas no menti para voc! Sempre quis ter filhos, o que no acontecia com voc. Assim que soube da gravidez, no hesitei em lev-la at o fim. No poderia sequer pensar em d-lo para adoo ou...
	Por favor, no ouse falar o que est pensando! No posso acreditar que tal pensamento houvesse passado por sua cabea depois de tudo o que vivemos juntos.
	Mas, Richard, voc sempre afirmou que no desejava ter filhos, que eles atrapalhariam sua vida se viessem em momento errado. E aquele era um momento errado  argumentou Hope.
Richard tentou ordenar suas ideias; afinal, no poderia se deixar levar pela emoo em um assunto to complexo.
	Temos ideais, projetos a serem realizados, mas nem sempre o destino nos permite concretizar nossos sonhos como desejamos. E voc me tirou o direito de saber que sou pai, perdi a oportunidade de participar de uma fase muito importante da vida dessa criana!
 Richard falou, com a voz carregada de emoo.  Posso pelo menos saber o nome dele?
	Christopher.
	E onde ele est agora?
	Na casa de tia Eloise.
	Quero v-lo agora!
	Eu o teria trazido comigo se soubesse que sua atitude seria essa.
	Bem, agora no h mais dvida. Vamos, lembro-me vagamente onde sua tia mora. Vou segui-la em meu carro.
Sem palavras, Hope deixou a casa seguida pelo ex-noivo, que trancou a porta em poucos segundos.
Em seu carro, pensava em algo que pudesse amenizar a raiva de Richard, mas logo concluiu que aquele sentimento somente teria fim quando ele parasse para pensar sozinho. E ela seria obrigada a ser paciente at que isso acontecesse. Afinal, nunca deixara de am-lo.
Desceu do automvel assim que estacionou em frente  casa da tia. Nem sequer esperou o outro carro chegar.
	Pessoal, estou de volta!  gritou, como se quisesse preveni-los de algo.
	Aqui na cozinha!  avisou a tia.  Estamos preparando biscoitos e tomando ch.
Logo em seguida, Richard chegou. Desceu do carro e esperou na varanda.
	Chris est na cozinha com minha tia  ela informou, tmida.
	Ele sabe de algo?  Richard estava hesitante.
	Como assim?
	Sabe que sou seu pai?
	No. No pude conversar com ele sem saber qual seria sua reao.
	Bem, agora no temos muito tempo para discutir sobre isso. Mas acho que o melhor a fazer  contar a verdade.
	Gostaria de ter um momento a ss com Christopher antes de apresent-lo, se no se incomoda  ela pediu.
Apesar do ressentimento, Richard sabia que aquela atitude era a mais sensata.
	Est bem, aguardarei aqui at que me chame  disse, meio a contragosto.
Hope suspirou, aliviada, e entrou na cozinha. Sua tia estava de costas, lavando algumas xcaras.
	Vi Richard chegando em seu carro  a tia observou, aproveitando um momento de distrao do garoto.
	Sim, ele est na varanda. Fez questo de vir assim que soube da notcia.
	Otimo!  Eloise abriu um largo sorriso.
Christopher estava comendo um biscoito quando Hope atravessou a cozinha para se sentar a seu lado.
	Ol, meu amor  cumprimentou-o com um beijo.  Como foi sua manh?
	Brinquei bastante, mame!  exclamou o pequeno, ainda de boca cheia.
	Chris, precisamos ter uma conversa. Tenho uma boa notcia para lhe dar. Lembra quando me perguntou sobre seu pai?
	Lembro.
	Que bom! O que acha de conhec-lo?
Os olhos do pequeno brilharam como nunca.
	Um pai como o de Patty?
Hope sabia que para seu filho o maior sonho seria ser igual aos amigos, ou seja, ter um pai que o levasse a passeios e que o buscasse na escola.
	Sim, meu amor  ela respondeu, carinhosa.  Seria um papai somente seu.
O menino no escondia a alegria que seu corao estava sentindo. A excitao tomou conta dele, a ponto de no conseguir se manter sentado na cadeira.
Hope retornou  varanda e convidou Richard para entrar.
	Ele est ansioso para conhec-lo  ela disse.
Aquela no seria a maneira como Hope gostaria que o encontro se desse, pois parecia muito formal, mas no poderia postergar sua deciso.
	Ol, Richard  saudou Eloise ao v-lo. Sempre gostara muito dele, o que tornava a surpresa agradvel.
	Ol, Eloise. Diga-me, sabia de tudo?
	Sim, mas  melhor no discutirmos isso agora, no acha?
	Tem razo  respondeu, cabisbaixo. Em seguida, pousou o  olhar sobre Hope para depois desvi-lo  para  o  pequeno Christopher.
Rapidamente, ela se colocou ao lado do menino, sabendo que este precisava ser amparado. Respirando fundo e com as mos envolvendo os pequenos ombros, Hope disse em tom amigvel:
	Meu amor, esse  seu pai, Richard.
Os olhares se cruzaram, mas nada pde ser dito. Ambos pareciam paralisados pela admirao mtua. A semelhana fsica entre pai e filho era impressionante.
Olhando para as migalhas espalhadas na mesa. Richard tentou diminuir a tenso do momento.
	Parece que gosta muito dos biscoitos de tia Eloise.
	Sim  o pequeno respondeu.  Mame tambm faz doces deliciosos.
	Oh,  mesmo?! Quantas bolachas j comeu?
Tmido, Christopher levantou trs dedos. Pegando outra na mo, ofereceu-a ao pai.
	Quer experimentar?
No querendo desapontar o menino, ele aceitou, com um sorriso nos lbios.
	Que tal irmos para o quintal?  sugeriu Richard.
	Posso, mame?
Hope vacilou por segundos, pois no sabia se estava preparada para deixar o menino a ss com o pai. Mas tambm sabia que seria uma boa oportunidade de aproximao entre os dois.
	Claro, meu amor.
Mesmo com o consentimento, Christopher hesitou alguns instantes, o que no passou despercebido a Richard. O pai ainda era um estranho para ele. Aquilo fez crescer um sentimento de culpa em Hope e nele. Os olhares se cruzaram, refletindo muito remorso.
	Por que no mostra as pedras de sua coleo?  indagou a me, encorajando-o.
	Quer ver?  o menino perguntou ao pai.
	Adoraria!
E seguiram porta afora, em direo ao quintal.
Mais  vontade, Chris explicava, enquanto caminhavam, como conseguira cada uma das pedras. As vozes iam sumindo  medida que se afastavam.
Eloise abraou a sobrinha, como se adivinhasse sua necessidade de apoio.
	Vai dar tudo certo, querida.
	Richard est muito magoado comigo, tia Eloise.  Hope tinha a voz embargada.
	 muito normal, meu bem. Coloque-se no lugar dele e ver que Richard no est errado.
	Mas, titia, no desejava for-lo a ficar comigo por causa de uma gravidez no planejada.
	No lhe tiro a razo por pensar assim, mas deveria ao menos ter dado a chance de ele escolher, j que para voc era mais importante ter o filho, e no casar com Richard.
	Voc est certa novamente, tia  ela disse, resignada.
E foi obrigada a ratificar sua concluso ao ver pai e filho conversando animadamente sob a sombra de uma frondosa rvore. Como poderia resgatar e devolver a eles o tempo perdido?
	No posso fazer nada quanto ao passado  ela continuou , mas tentarei no cometer erros no futuro. E, para comear, voltaremos a morar aqui na cidade. Assim Richard poder ficar com Christopher o tempo que quiser.
	E como sabe que ele vai assumir a paternidade?
	Eu sinto  respondeu, com convico.  Veja como se divertem.  Hope apontou para os dois.
Realmente, era impossvel negar que havia uma sintonia inesperada para um primeiro encontro.
	Talvez Richard esteja querendo compensar sua ausncia, minha querida  a tia argumentou.  Temo que essa ateno desaparea com o tempo.
	No acredito nisso! Richard no conseguiria simular seus sentimentos.
Depois de se divertirem observando pedras e flores, pai e filho retornaram  cozinha, onde Hope os aguardava.
	Fica para o jantar, Richard?
	No posso  Richard respondeu, notando o olhar de desapontamento tanto de Hope quanto de Christopher.  Deixei um trabalho por fazer e devo entreg-lo ainda hoje. Mas no se preocupe  ele se antecipou em avisar, passando a mo nos cabelos negros do menino , voltarei em breve, assim poderemos comer mais biscoitos e tomar bastante leite.
E Richard sorriu como nunca Hope tinha visto.
	Isso mesmo!  confirmou o pequeno, entusiasmado.
	Querido  Hope disse, abaixando-se diante de Chris.  Vou acompanhar seu pai at a varanda. Tia Eloise est no quarto. Se quiser, pode ficar com ela, desde que me prometa que vai obedec-la.
	Sim, mame. Adeus, Richard.  E saiu correndo  procura da tia.
Partir e deixar o filho, mesmo que por pouco tempo, fazia-o sofrer. Agora no suportava a dor da separao, por mnima que fosse. Richard s saiu quando a figura do filho no era mais visvel.
Ele e Hope caminharam para a varanda em silncio.
	Vai voltar Para Wasco? - ele perguntou, enfim.
	No sei estou indecisa- Gostaria de sua opinio.
	No acha que  tarde demais para me perguntar, Hope?
	Sempre me peocupei com o que pensa.
Ela estava mentindo novamente, pensou, caso contrrio no o teria afastado do filho como fez.
	Bem no me importo com o que faa de sua vida - disse, ressentido--- Apenas no gostaria que levasse o menino embora.
	Pode ficar tranquilo no vou atrapahar o relacionamento de vocs.
Richard precisava confiar nela de novo, seno seria impossvel dormir uma noite sequer, pensando que Hope poderia afast-los para sempre.
 Ligarei para voc depois.
 E com aquelas palavras, partiu dali com o corao em prantos.

CAPITULO II

Richard dirigiu-se ao escritrio com o intuito de ficar sozinho durante algum tempo, mas ao entrar encontrou Jane sentada separando a correspondncia.
	Voc perdeu seu compromisso com a sra. Johnson. Anotei as informaes necessrias e disse a ela que ligaria.
	Droga! Eu esqueci!
	Voc nunca esquece seus compromissos, Richard, o que est acontecendo?
Ele andou at o quadrado onde o filho de Jane dormia calmamente. No estava em condies de encarar seus sentimentos, muito menos de cont-los para Jane. Em sua mente, via Christopher enquanto sentavam na grama. A dor o atingiu mais uma vez.
	Richard? O que est acontecendo?  A voz de Jane parecia preocupada.
Jane tinha a intuio muito forte, por isso logo sabia quando havia algo errado com ele. Talvez tambm por isso a parceria deles no trabalho j durasse tanto tempo. Ambos se completavam, ela com seu lado intuitivo, ele, com a viso objetiva e racional.
	Hope e eu... temos um passado em comum  respondeu Richard.
	Isso ficou claro ontem quando vocs se encontraram aqui.
Richard foi at a janela observar a paisagem e lhe contou sua histria.
	O que vai fazer agora, Richard?
	Essa  a pergunta muito difcil. Acabei de conhec-lo. Chris  maravilhoso, inteligente e carinhoso.
	A me dele teve muito a ver com isso.
	Talvez, mas quando olho para ele... Era por isso que no queria mais filhos. Como poderei proteg-lo, dar a ele tudo o que precisa?
		Como Hope se sente sobre voc passar um tempo com o menino?
Richard tentava afastar o dio e a dor de seu corao toda vez que se lembrava da mulher que um dia conseguira romper a barreira que protegia seu corao. Sentou-se na cadeira e encarou Jane.
	Suas perguntas me colocam contra a parede.
	Simplesmente porque me preocupo com voc.
Richard estava ciente de que poderia desabafar com Jane e seu marido.
	Ainda no tive tempo para refletir. Como se sentiria se algum lhe dissesse que tem um filho e que perdeu seus primeiros anos de vida?  indagou Richard.
	Angustiada, brava e confusa, para no dizer mais.
	Pois bem,  o que sinto tambm. So sentimentos conflitantes: a alegria e o dio, a esperana e o medo. Ao menos uma coisa eu sei: no o perderei como aconteceu com Davie.
	E a me dele? -	:
	O que tem ela?
	O que sente por Hope?
Richard se levantou e comeou a andar em crculos pelo escritrio.
	Estou chateado e magoado com ela. Hope me deixou, mentiu para mim. Mas mesmo assim quando olho para ela...  Ele parou de andar e murmurou:  Ainda a admiro.
	Talvez conversar seja uma boa sada para achar as respostas s suas perguntas. E sabe que pode contar conosco.
	Voc sabe tambm que para mim  muito difcil falar sobre meus sentimentos.
	Quem sabe no  o momento de mudar de atitude?
A mente de Richard estava confusa, imagens do passado se misturavam com as do presente. E todas o machucavam interiormente. Falar sobre sua vida lhe custava muito. E Hope... ele no poderia se entregar de novo. No, no estava disposto a sofrer mais uma vez.
Hope cortava os sanduches pela metade e colocava-os de maneira simtrica em uma bandeja. Quando viu as horas, seu corao acelerou. Richard chegaria a qualquer momento. Normalmente, Christopher j teria lanchado, mas como Hope passara a manh na casa da me guardando os pertences dela, estavam atrasados.
Todos os dias, durante a semana, Richard visitara o filho e se divertiram muito juntos. Tentava esconder seus sentimentos, mas Hope sabia que ele sofria por causa de Davie. E o que era pior, Richard no se abria, guardando para si todos os maus sentimentos. Ele simplesmente no aceitava a ajuda de quem quer que fosse. O fato ficava mais evidente nas conversas superficiais que tinham sempre que se encontravam. Sem falar no fato de ele no dar mostras de que um dia iria perdo-la pelo seu erro.
Hope deixara a porta aberta e, quando Richard tocou a campainha, ela exclamou da cozinha:
Entre!
Em poucos minutos, l estava ele, vestindo uma camisa branca, com os primeiros botes abertos, deixando  mostra parte do trax bronzeado. A cala preta, ajustada nos quadris, deixava-o ainda mais sedutor.
	Voc no deveria deixar a porta aberta.
	Sabia que era voc.
	No estamos em Wasco.
	Sei disso. Cresci aqui, esqueceu-se?  Uma observao mais atenta e ela percebera que Richard se lembrara de outras coisas tambm.  Desculpe-me pelo atraso, mas estvamos na casa de minha me, guardando algumas coisas.
	Deve ter sido muito doloroso  ele comentou, em tom solcito.
	Digamos que  muito difcil lidar com essa situao. Enfim,  a vida.
	Eu poderia ter passado aqui  noite.
	Oh, no, este horrio est bom. No conseguiria ficar l por mais tempo.
	Posso ajudar em alguma coisa?
	Muito obrigada, mas estou terminando. Na realidade, gostaria de pedir-lhe para ficar com Chris amanh.
Suas mos comearam a tremer quando Richard comeou a se aproximar dela.
	Voc e Eloise gostariam de passar a tarde na casa de sua me?
	No, teremos de comparecer  leitura do testamento. Sei que ser uma reunio breve e at poderia levar o pequeno comigo, mas achei que seria mais uma oportunidade para ficar com ele, se no for incomod-los,  claro.
Richard observava cada gesto, cada movimento dela.
	Gostaria que fssemos com voc?
	Faria isso por mim?
	Sem dvida, afinal, sou o pai do garoto e tenho de ajud-la.
Hope devia saber que ele no estava fazendo aquilo por ela.
	Oh, sim  comentou, um tanto desanimada.  Bem, podemos levar um caderno e alguns lpis, o que o manter entretido por um bom tempo. Devemos chegar s duas horas da tarde.
	Est bem. Jane se encarregar dos compromissos no escritrio.
Hope aproveitou a oportunidade para contar-lhe as novidades:
	Mandei meu currculo para todos os berrios da regio. Pretendo me mudar para Los Angeles.
	E sua vida em Wasco? Pode deix-la to facilmente?
	Bem, no tenho muito a deixar para trs em Wasco. Perdi meu emprego, pois a escola teve de fechar as portas, e com a morte de minha me, decidi mudar de vida.
Richard encostou-se na pia e seu brao roou levemente no seio de Hope.
	Ento poderei ver meu filho quando quiser?
Mais parecia um desafio do que propriamente uma pergunta.
	E claro... desde que sinta vontade.
Richard estava to prximo dela que era impossvel no sentir seu perfume msculo e admirar os msculos bem trabalhados de seu brao. Por um momento, Hope pensou ter visto desejo nos olhos dele e o sentiu cada vez mais prximo.
De repente, como um furaco, Christopher atravessou a porta da cozinha.
	Estou com fome! O lanche est pronto?  perguntou, aflito.
Richard se afastou, assustado. No estava acostumado a cenas to repentinas. Hope sentiu-se frustrada e um vazio tomou conta de seu corao novamente.
Aps ler o testamento de Jennie Franklin, George Gunthry mostrou o documento a Hope.
	Em resumo, os objetos pessoais e as terras no Arizona foram herdados por Hope. Algum tem alguma pergunta a fazer?
	O que sugere que faamos em primeiro lugar?  Eloise questionou.  E quanto tempo minha sobrinha tem para deixar a casa onde sua me morava?
	Bem, tero tempo suficiente para guardar os pertences de Jennie, pois o sr. Hale deu um prazo at outubro para liberarem o imvel. E depois vendam a propriedade, se no pretendem morar l.
	Ser muito difcil abrir mo da casa onde minha me viveu seus anos mais felizes.
	Prefere mant-la em seu poder?
	Gostaria muito, mas necessito de dinheiro, afinal, estou sem emprego e pretendo morar em Los Angeles, onde h campo em minha rea e poderei concluir meu curso para o magistrio. Temo apenas no poder finalizar os negcios em apenas um ms.
	E se ela alugasse a casa onde sua me morava?  perguntou Eloise ao advogado.
Hope no esperou pela resposta, antecipando-se:
	Tia, a casa  muito grande. Christopher e eu no precisamos de tanto espao. Alm do mais, no tenho como pagar o aluguel, pelo menos, no por enquanto.
Richard acomodou-se na cadeira. At ento, permanecera calado.
	Quanto tempo ela ter para vender a propriedade no Arizona?
	Depende dela  respondeu Gunthry.
	Precisarei de uma semana ou duas para decidir.
	Sinto lhe dizer, mas duas semanas  o mximo de tempo que tem, a no ser que queira guardar os mveis e outros objetos em um galpo. Avise-me at o incio do prximo ms, assim terei tempo hbil para organizar a venda de seus bens.
	Decidirei rpido. Cuidar da minha propriedade no Arizona, sr. Gunthry?
	Farei o que estiver ao meu alcance. Talvez demore um pouco para vend-la, pois o mercado est em baixa, principalmente naquela regio, que, pelo que sei,  um pouco afastada. Mais alguma pergunta?
	Por enquanto, no  respondeu Hope.  Pretendo poupar o dinheiro da venda do imvel para os estudos de Chris.
	Podemos discutir o assunto quando vendermos a propriedade  sugeriu o advogado.
Enquanto Eloise dirimia mais algumas dvidas, Richard curvou-se para se aproximar de Hope, seu brao encostando no dela.
	Que propriedade  essa no Arizona?
	Pelo que sei  um pequeno lote que meu pai comprou quando ele se aposentou. Richard, poderia cuidar de Chris amanh  noite? Gostaria de ficar um pouco mais na casa de minha me.
	Sem dvida.
No havia empecilhos quando o assunto era o pequeno Christopher, o que no era o mesmo quando se tratava de Hope, pois algo lhe dizia que seu relacionamento no era to bom quanto esperava que fosse.
Na tarde seguinte, Hope estava no antigo quarto de Jennie, guardando as ltimas peas do vesturio. Na cozinha, Eloise se incumbia de guardar as louas e panelas e de distrair o sobrinho.
Hope dobrava um blazer quando ouviu passos vindos da escada.
Reconheceu-os como sendo de Richard. O que estaria fazendo ali? Aps a leitura do testamento, ele simplesmente se despedira do filho, com um beijo e nada mais.
Richard entrou no quarto, vestindo um short azul-marinho e uma camiseta plo vermelha. Mais parecia um veranista do que propriamente um detetive.
	Como est, Hope?
	Bem, na medida do possvel.
	Christopher parece to ocupado quanto sua tia, ajudando a guardar as coisas da cozinha.
Hope ainda podia ver sua me cozinhando naquela cozinha e sentir o aroma de sua comida.
	Duvido muito que esteja ajudando.  A voz embargada indicava que as lembranas a atormentavam bastante.
Hope ps um dos vestidos em uma mala.
	Talvez devesse traz-lo aqui para dar sossego a Eloise.
	Melhor seria se pudesse descansar um pouco. Sua tia me disse que est aqui desde as primeiras horas da manh.
	Oh, ela sempre exagera! E, alm do mais, descansei para almoar.
Richard atravessou o quarto.
	Hope, no precisa fazer tudo isso em um dia.
	No pretendo vir aqui muitas vezes, por isso pretendo acabar a tarefa o mais breve possvel. Esse trabalho me angustia demais. Alis, o que faz aqui to cedo? Pensei que viesse somente  noite.
	Achei que seria uma boa ideia levar Christopher para um pas seio no parque, assim voc e sua tia podem trabalhar tranquilas.
Aquela era uma grata surpresa, e Hope sorriu com a gentileza.
	Voc acha que Christopher ir comigo para o parque?
Hope no respondeu.
	Hope?
	Tenho certeza de que...
A mo pesada em seu ombro fez com que parasse de falar. Richard virou-a e viu as lgrimas em seu rosto.
O que aconteceu?  perguntou, com uma voz acolhedora.
	Sinto muito a falta de minha me. E de meu pai tambm. No posso acreditar que ambos no esto mais a meu lado.
Sentiu que os braos de Richard a enlaavam e uma das mos acariciava seus cabelos. No havia nada a dizer, e Hope estava grata por se sentir amparada. Ficaram unidos durante um longo tempo, o que a fez se lembrar da noite que passaram juntos.
De repente, Richard se afastou.
	Mandarei Christopher subir para que possa convenc-lo a ir comigo.  Atravs daquelas palavras era fcil perceber que Richard mantinha-se controlado, como se o passado entre ambos nunca tivesse existido.
O que poderia fazer para amenizar a tenso que havia entre eles?
Trs semanas haviam se passado. Hope encontrava-se lendo a relao dos bens de sua me que seriam vendidos. Na semana anterior, comparecera a duas entrevistas para emprego, mas nenhuma delas fora bem-sucedida. Suas reservas estavam se esgotando, o que a compelia a vender o que tinha como herana. E sem emprego, estava impossibilitada de alugar um imvel. Sua tia insistira para que me e filho morassem com ela pelo tempo que fosse necessrio, mas, para Hope, aquela situao era insustentvel. Precisaria de um espao somente seu, onde pudesse cuidar de seu filho e ter uma vida digna.
Durante aquele perodo, Christopher ficara em companhia do pai, o que as ajudava sobremaneira. Diversas vezes agradecera pelo gesto de Richard, mas ele no parecia muito preocupado em retribuir os agradecimentos, deixando bem claro que seu empenho era em favor apenas do filho.
Um dia antes da venda dos mveis, Richard surgiu para ajud-la, porm, mal lhe dirigiu a palavra.
Desanimada, Hope subiu a escada at o andar superior. Precisava apanhar uma caixa guardada em um dos armrios. Como estava na parte de cima, pegou uma banqueta no quarto ao lado e subiu. L estava a grande caixa de sapatos. Quando esticou o brao para alcan-la, perdeu o equilbrio e a nica coisa que se lembrava era de que a caixa estava aberta, os objetos espalhados no cho, e ela, amparada nos braos de Richard.
Seu corao disparou e a garganta ficou seca.
	Deveria ter mais cuidado, Hope.
	Sim...
Ele franziu as sobrancelhas e riu.
	Est cansada, essa  a verdade  murmurou ao coloc-la de p.
	Tenho de limpar tudo.
	Ento me chame se precisar de ajuda.
	No quero abusar de sua boa vontade.
	No seja tola!
Hope sabia que Richard no estava mentindo. Talvez ela estivesse com medo de sua rejeio, por isso sentia-se acanhada para pedir sua ajuda.
Richard recolheu os objetos espalhados no cho e os entregou a ela. Chamou-lhe a ateno uma fotografia, que reconheceu de imediato. Era uma foto dela e Richard tirada no dia em que ficaram noivos. Teria deixado aquela caixa por ltimo inconscientemente? Outro envelope chamou a ateno de ambos: era o convite do casamento. O clima era de tenso. Hope colocou a fotografia sob o convite.
	Na noite em que desmanchei o noivado...
	Hope, isso no ajudar em nada.
	Por favor, deixe-me falar. Talvez voc entenda melhor minha deciso. Naquela noite, ouvi a conversa entre voc e minha me. O mdico acabara de falar que eu estava grvida. Suas colocaes foram to sinceras e honestas que eu no tinha o direito de interferir em seu futuro, dando-lhe um filho que no estava em seus planos.
	Voc no me disse que estava carregando nosso filho.
	Mas, Richard...
	Como j disse, Hope, isso no ajudar em nada.  Ele olhou para a estante.  No h mais nada l em cima. Se precisar de mais ajuda, pode me chamar.  E ele desceu a escada sem olhar para trs.
Alguns minutos depois, o telefone tocou.
Hope,  para voc!
Ela no sabia quem estaria ligando, mas achou que pudesse ser o advogado. Desceu a escada correndo e, antes de atender, Richard informou:
 Mark.
Hope sorriu. Mark era um velho amigo de Wasco. Sentou-se no cho e comeou a conversar.
	Ol, Mark!  ela o cumprimentou, um pouco tmida sob o olhar de Richard.  No, no tenho planos para o dia de Ao de Graas, mas pretendo voltar a Wasco antes, para pegar minhas coisas que esto no apartamento.  Olhou para Richard, na esperana de que ele fosse embora, o que no aconteceu.
Ele ouvia cada uma de suas palavras. Quem era o rapaz com quem ela falava com tanta desenvoltura? Ningum nunca mencionara aquele nome em sua presena.
Pelo que tudo indicava, o rapaz estava se oferecendo para despachar o restante de seus pertences, pelo que ela agradeceu efusivamente.
	Oh, Mark, no saberia como agradecer-lhe, voc  muito gentil! Anote o endereo de minha tia, por favor. 
Mais uma pausa e Hope tornou a falar:
	Cristopher est bem, obrigada. Ele no me disse ainda o que quer ganhar no Natal. Quer falar com ele? Hope gesticulou para chamar o menino.  Mark quer falar com voc, meu bem.
Richard notou a pressa com que o garoto correu em direo ao telefone, ansioso para falar com o homem do outro lado da linha.
Hope observou o filho contando sobre seu dia-a-dia, at que se surpreendeu com a ltima afirmao.
	Tenho um pai agora  disse, com um sorriso nos lbios.  Adeus, Mark.  Ele estendeu o telefone em direo  me, que parecia um tanto encabulada.
	Sim, eu contei. Mas no queria falar sobre isso agora. Escreverei ou ligarei assim que puder.  Aps mais alguns minutos de conversa ela desligou o telefone.
Quando o menino deixou a sala, Richard perguntou:   
	Quem  Mark?
	Nosso vizinho... e um bom amigo.
	Apenas amigo?
	Ele vai me mandar o restante das caixas para me poupar uma viagem.
	Voc o conhece h muito tempo?
	Desde que me mudei para Wasco.
	Presumo que no seja casado.
	 divorciado.
	Vocs eram namorados?  Richard sups que, se fosse direto ao assunto, Hope falaria a verdade.
Ela suspirou, admirada com a pergunta. Depois, veio a irritao. A maior parte do tempo ele agia como se a ignorasse, e agora queria detalhes sobre sua vida ntima.
	Por que se interessa em saber se estava envolvida com Mark?
Um brilho fuzilante surgiu nos olhos de Richard.
	Ento estava.
	No disse isso. Quero saber o porqu do interesse.

	Porque tudo o que voc faz ou fez afeta nosso filho. Quero saber se esse homem frequentava sua casa, digamos, a qualquer hora do dia.
	Tudo bem. Mark e eu nunca fomos amantes. Depois que Christopher nasceu ele me ajudou muito. Quase chegamos a namorar,
mas conclumos que o melhor seria sermos apenas bons amigos.
	Somente amigos?
Ela disse uma vez e no repetiria. Mas Richard persistia.
	Ele sabe sobre ns?
	Sim, Mark sabe que Christopher  seu filho. Ainda no conversamos a respeito pessoalmente, ento ele desconhece os detalhes do que aconteceu depois que voltei para Los Angeles.
	Por que ele ligou?
Hope sabia que aquelas perguntas tinham como objetivo obter mais informaes sobre sua vida em Wasco.
Apenas para saber o que Chris gostaria de ganhar no Natal.
Como um lampejo de conscincia, Richard se perguntou por que estaria to interessado em saber sobre o passado dela. Mas o que no aceitava era saber que algum, que no ele, se interessava por seu filho, e a ideia de que Hope e Christopher tivessem a ateno de outro homem o incomodava, afinal, ele era o pai. Sem perceber, mudara seu comportamento, e agora estava preocupado em tornar aquele Natal o mais feliz da vida do pequeno. Richard nunca pudera imaginar que sua vida seria completamente alterada com a chegada de um filho. Ele tentou mudar de assunto.
	J comprou o presente para Christopher?
	No pude pensar nisso ainda.
	Talvez possamos fazer compras juntos, depois que vender os mveis.
Hope lhe dirigiu um enorme sorriso de alegria.
Oh, eu adoraria!
Quando a viu to contente, Richard relembrou todos os bons momentos que passaram juntos. Havia muito tempo que no se interessava tanto pelo Natal. Uma criana sempre tornava a festa especial. Uma criana... uma famlia. Ele gostaria que seu filho sentisse a segurana de um lar. Richard deu alguns passos em direo a ela.
	Queria proporcionar a Christopher um Natal especial.
	Eu tambm desejaria muito...
A pulsao de Hope estava acelerada, e Richard era capaz de contar cada batida de seu corao. A pele rosada o fez se lembrar da noite que passaram juntos, do amor que sentiam um pelo outro.
	Melhor eu arrumar as coisas l em cima  ela murmurou.
Em um impulso, Richard ps sua mo sobre o ombro dela.
	Venha comigo at a garagem para ver se tudo est do jeito que deseja.
	Est bem.  Hope olhou para a sala que agora estava vazia.  Tudo isso  to triste!
	Pode cancelar a venda, se quiser.
	No tenho outra opo, e, alm disso, guardar os pertences de minha me s me trariam recordaes dolorosas. Esto comigo algumas de suas pequenas colees e poucos objetos que ela guardava por estimao. Isso j me basta.
Richard no tinha tanta certeza disso. Hope no queria admitir, mas desfazer-se das coisas de sua me a machucava. Ele gostaria de fazer algo para amenizar seu sofrimento.
Na garagem, Hope examinava todos os mveis.
Vou dar a mesa que estava na sala de jantar para minha tia.  Enquanto Hope falava, aproximou-se da penteadeira.
	Lembro-me muito bem das vezes em que ficvamos diante do espelho a nos pentear. Ela passava seu perfume preferido como se fosse um ritual.
Richard viu as lgrimas brotarem nos olhos de Hope.
	Por que no fica com ela?
	Onde a colocaria?
	Posso coloc-la em minha casa at que tenha um lugar para morar.
O lbio inferior de Hope tremia. Richard sabia que ela estava lutando contra as lgrimas. Finalmente, conseguiu dizer:
Gostaria muito de ficar com o mvel.
Est bem. Providenciaremos o transporte dele esta noite.
Hope aproximou-se, o que o fez pensar em qual seria sua prxima atitude.
Na ponta dos ps, alcanou-lhe o rosto e beijou-o.
Obrigada, Richard. Sabe o quanto isso significa para mim.
A vontade de tom-la nos braos e beij-la teve de ser controlada. Hope voltou  posio e deixou-o na garagem para dirigir-se ao quarto.
Ao v-la desaparecer pela porta, seu corao dizia-lhe para det-la e pedi-la em casamento, mas a razo conteve seus impulsos. No poderia se deixar envolver por aquela magia destruidora. Da prxima vez, manteria uma distncia segura.

CAPITULO III

J era final de tarde quando Eloise se levantou para abrir a porta.
	Richard, que surpresa! Hope no est. Tinham um encontro?
	No, s pensei em lev-los para passear.
	Se quiser, pode esperar. Hope teve de resolver alguns problemas na cidade e voltar em breve.
	Christopher est com ela?
	Aqueles dois so inseparveis. Deve ser por causa... bem, no importa. Entre por favor  ela ofereceu.
	Se no se incomoda, esperarei, pois tenho alguns assuntos a tratar com sua sobrinha.
	Claro que no, assim me far companhia. Alis, sentirei falta deles quando se mudarem. Conheo muito bem Hope, assim que achar um emprego, alugar uma casa e se mudar.
O medo voltou ao corao de Richard. Apesar de morar na mesma cidade que seu filho e poder visit-lo quando quisesse, Richard se sentia impotente ao pensar que poderia no estar presente em um momento em que Chris precisasse dele. Queria poder estar a seu lado vinte e quatro horas por dia, a fim de proteg-lo, e no falhar como da primeira vez em que fora pai.
	Estou assistindo a um filme antigo. A voz de Eloise trouxe Richard de volta  realidade.  Gostaria de se juntar a mim, ou prefere um jogo de cartas?
	Acha que pode ganhar de mim?
	Qualquer dia, a qualquer hora.  Eloise caminhou em direo  cozinha.  Sente-se e aceite meu desafio.
At o final da segunda partida, tudo corria bem, mas em seguida Richard comeou a ficar impaciente.
Para onde Hope ia mesmo?
Disse algo como comprar os primeiros presentes de Natal, no tenho bem certeza.
No haviam concordado em faz-lo juntos? Por que teria se antecipado? No, talvez estivesse apenas comprando enfeites ou algo parecido, afinal, com Christopher, pouco poderia fazer.
J passava das nove e meia quando Richard caminhou at o terrao, na esperana de surpreend-los na chegada.
Eloise se aproximou.
	Ela costuma ficar fora at to tarde?  perguntou Richard.
	No, tambm estou estranhando sua demora. Hope  muito disciplinada em relao aos horrios do pequeno.
	Na reunio de ontem, tudo pareceu correr bem. Tem certeza de que ela no manifestou qualquer recada?
	Nada que no fosse o esperado, chorou por alguns momentos, mas logo se recomps.
	Quem sabe no foi at Wasco?
	Creio que no iria sem me avisar.
Richard no tinha tanta certeza assim. Hope precisava de um ombro amigo, e Mark estava l...
	Tem o telefone de Mark?
	No, apenas Hope tem o nmero anotado em sua agenda. O que tem em mente?
	Nada em particular. Vou sair para procur-la.
	No me parece uma boa ideia, afinal, no tem nem uma indicao.
	Mas meu filho est com ela.
	Acha mesmo que Hope colocaria a segurana dele em perigo?
	No h proteo nas ruas, ainda mais a essa hora da noite. No posso ficar aqui  espera deles, de braos cruzados.
Richard decidiu ligar para Jane, mas no encontrou o casal em casa. Tentou manter a calma.
Mais uma hora se passou at que o ronco do motor de um carro se ouviu ao longe. Mais que depressa, ele saiu em disparada para a varanda. L estavam eles, o olhar assustado de Hope a examin-lo.
	Por Deus, onde estiveram?  ele gritou, descendo os degraus da varanda e vendo seu filho dormindo no assento traseiro.  Fiquei preocupado!
Hope ainda estava perplexa com a recepo.
	Oh, precisa de ajuda?  ele perguntou, tentando manter a calma depois de tanto nervosismo.
	Obrigada. Poderia lev-lo ao quarto enquanto apanho os pacotes.
Como Hope podia se manter to calma diante de sua preocupao?
	Voc est bem?  Richard perguntou, esperando por alguma explicao. Fitou-a da cabea aos ps para certificar-se de que no havia sofrido nenhum tipo de violncia.
	Claro que sim! Tivemos um pequeno contratempo: o pneu furou. Achei que seria tarefa fcil, mas enganei-me. Fomos obrigados a esperar a ajuda da polcia.
	Poderia ao menos ter telefonado!
	Desculpe-me, mas no queria perturbar ningum.
Perturbar! Se soubesse o estado de nervos em que se encontrava, teria ligado do primeiro telefone que achasse!
Como se j no bastasse a tenso que o assunto que queria conversar causava, ainda teve de suportar a ausncia do filho.
Bem, depois de v-lo so e salvo, s lhe restava se recompor e tentar explicar a Hope o motivo de sua visita. Aguardou-a na sala, enquanto ela ajeitava a cama do menino.
Se pensasse friamente, nunca pensara em ter um segundo filho, mas o destino batera  sua porta e ele no poderia negar a Chris-topher um futuro com segurana e amor. Para isso teria de dar-lhe uma famlia, que s poderia ser constituda se os trs morassem juntos. Sim, um casamento por convenincia seria a soluo para seu problema. Hope no precisaria trabalhar e teria todo o tempo para dedicar ao filho.
Ouviu passos em sua direo.
	Minha tia me disse que voc ficou muito preocupado. Desculpe-me, mas no tive como me comunicar com vocs  ela disse, aproximando-se.
Estavam a ss na varanda.
Entendo. Hope, case-se comigo.
Como assim?, ela se questionou. Estaria falando, a srio? Sentiu o corao palpitar dentro do peito, mal podia respirar. A pergunta em nada se parecia ao pedido de casamento de quatro anos antes, romntico e sensvel, mas mesmo assim ficou emocionada.
Uma esperana surgiu em seu corao, talvez a chama da paixo no estivesse extinta e ento o amor intenso poderia ressurgir e transformar em realidade o sonho de tanto tempo.
	Por que quer se casar, Richard?
	Para dar a Christopher uma vida com um lar onde ele possa encontrar a segurana e o amor de seus pais.
	E ns?  Ela prendeu a respirao.
	Ns?  Ele olhou para as estrelas e, frustrado, continuou:
 Ainda no pensei a respeito. Estou preocupado com Chris.
Estavam to prximos que Hope podia sentir a fragrncia de seu perfume. A realidade seria muito dura se admitisse que Richard estava lhe propondo casamento apenas pelo bem-estar do pequeno. Ser que nada restara do amor que sentiam quatro anos atrs?
	Voc pretende... quero dizer...  Hope encontrava dificuldade em perguntar sobre questes mais ntimas.
E ele pareceu perceber seu constrangimento.
	O fato de estarmos morando juntos no significa que precisaremos dormir juntos, Hope.
	O que espera dessa unio?
	J lhe disse, quero formar um lar para Christopher. E para isso espero sua fidelidade e discrio.
	Mas se no estivermos dormindo juntos...
	No posso negar que tive um caso aqui e outro l, mas mantive-me afastado de tudo o que se relaciona a problemas. Gostaria que fosse assim com voc tambm.
	No tem por que se preocupar, pois em minha estada em Wasco no mantive nenhum relacionamento.
Richard se voltou para poder encar-la.
	Quer dizer que fui o primeiro e nico homem com quem esteve?
	Sim.
	Gostaria de poder confiar em sua palavra.
No tenho por que mentir.
Ele tornou a admirar o cu.
	Mas j mentiu. Voc no confiou em mim. Fugiu e levou consigo um segredo que no poderia ter escondido, ao menos no de mim. No sei se poderei confiar em voc depois do que aconteceu.
Hope baixou a cabea. Aquilo a atingiu como uma facada no peito. Estava se sentindo incompreendida.
Voc no me entende.
Encarando-a novamente, ele admitiu:
	No, mesmo. Mas sei que ningum ir me separar de meu filho e, para ter certeza, quero ter todos os direitos legais. Casando-me com voc conseguirei o que quero.
Hope sempre respeitara a maneira como Richard pensava e encarava o mundo, sabia pelo que ele j passara. Durante sua vida, Richard se tornara o tipo de pessoa que no expressava seus sentimentos e nem os confidenciava a quem quer que fosse. Mas nem por isso era uma pessoa amarga e rude. Quando se tratava de algum que ele amava, fazia de tudo para que essa pessoa fosse feliz, o que ficou bem claro no caso de Christopher.
Ela ainda o amava. Casar-se com ele talvez fosse uma forma de reconquist-lo e de cicatrizar as feridas de seu corao.
Mas o que a pertubava era a possibilidade de no ser correspondida. Seria ele capaz de enfrentar um casamento sem am-la? E quanto a ela? Suportaria ter a seu lado algum que no a achava digna de confiana? Concluiu que sim, pois viver sem Richard seria muito pior, para Christopher e ela.
	Est bem, eu me caso com voc, desde que possamos decidir de comum acordo sobre o futuro de Christopher.
	Sem dvida, Hope.
Diante do espelho, Hope era ajudada por Eloise a fazer os ltimos arranjos no vestido de noiva. Passara-se uma semana desde o pedido. Porm, em seu reflexo, Hope no via nenhuma demonstrao de felicidade.
	Como posso ter certeza de que estou fazendo o que  certo, tia?
	Minha querida, voc sempre amou Richard.
	Mas no posso dizer o mesmo dele. No tenho dvidas de que Chris passou a ser a pessoa mais importante para ele. Mas no posso afirmar que sente o mesmo por mim. Tenho a impresso que no conseguiu me perdoar, e, justificar esse casamento apenas pelo bem-estar de Chris talvez no seja a melhor soluo.
	Bem, se pensa assim, ainda h tempo de voltar atrs.
	No! Tentarei faz-los felizes.
	Ento, erga a cabea e desa a escada, orgulhosa como a menina que conheo.
Hope abraou a tia.
	No sei o que seria de mim sem voc, Eloise.
Sim, Eloise era a fora de que dispunha desde a morte da me.
	Meu bem, sempre estaremos a seu lado.
Hope sabia que ela estava se referindo tambm a Jennie.
	Sim, tia.
Ao p da escada, o pequeno a aguardava com uma almofada de cetim nas mos. Eram as alianas.
Ao lado de Richard, Adam tentava clarear-lhe as ideias.
	Sabe que no  obrigado a se casar apenas para ter o direito  paternidade.
	Sim  respondeu, lacnico.
	Quero apenas ter certeza de que est agindo de forma consciente  ele explicou. Como amigo, queria seu bem, mas como advogado pretendia esclarecer-lhe que um casamento no era a nica soluo para ter o filho a seu lado.
	Sei o que estou fazendo, Adam.
	No se esquea de que poder ser to infeliz quanto os dois, se levar adiante uma deciso errada.
	Meu trabalho voluntrio me d mais certeza de minhas atitudes. Convivo com crianas rfs ou de pais separados e sei o quanto di para elas o fato de no ter um lar. Fariam de tudo para poderem ter uma famlia de verdade. E  isso o que quero dar a Christopher. No gostaria que ele se tornasse uma criana carente e insegura como tantas que conheo.
	Mas veja meu caso, tenho duas lindas filhas do meu primeiro casamento e optei por me separar de minha esposa a viver com ela sem amor.
	No tive a inteno de critic-lo, Adam. Voc  um caso  parte. Mas prefiro que me d apenas seu apoio, se no se incomoda.
A mensagem fora captada, e Adam no se pronunciou mais a respeito.
Richard sabia que o amigo tinha a melhor das intenes, mas no estava disposto a voltar atrs, mesmo sabendo que no agradaria a todos.
Ao perceber que o rgo emitia as primeira notas musicais, olhou para o topo da escada. Eloise surgia em primeiro plano. Logo atrs, Hope aparecia, deslumbrante em seu vestido.
Ao v-la, Richard ficou paralisado. "Como est linda", pensou. O corao palpitava. Uma confuso de pensamentos se instalou em sua mente. J no sabia mais definir o que sentia por aquela mulher que em pouco tempo se transformaria em sua esposa. Aquele era seu sonho havia quatro anos, desde quando a pedira em casamento pela primeira vez. Naquela poca sabia que ela era a mulher de sua vida, por isso no hesitou em am-la at as ltimas consequncias. Descobrira que fora sua primeira experincia sexual, o que o deixara mais orgulhoso. No tinha dvida de que o filho era seu, mas nunca poderia esperar que Hope o trasse de forma to inescrupulosa. Durante os quatro anos que se seguiram aps a separao, sofrera amargamente. Por ela e por tudo o que havia acontecido em sua vida.
Ao v-la aproximar-se com o filho ao lado, Richard se emocionou. Virou-se para o sacerdote, de quem ouviria as palavras que mudariam o rumo de sua vida. 
 J pode beijar a noiva  disse o padre, indicando que a cerimnia chegara ao fim.
Richard fitou os olhos azuis que o encaravam. Pareciam implorar pelo beijo.
Richard enlaou Hope pela cintura, aproximando-a de seu corpo. Inclinou a cabea, e os lbios se tocaram pela primeira vez depois de quatro anos.
Por pouco ele no se entregara ao prazer do contato. Afastou-se para no correr o risco de ser trado pelo corao.
Foi ento que a voz de Eloise interrompeu seus pensamentos:
Vamos brindar na sala ao lado!
	Podemos deixar as formalidades de lado, se preferir  murmurou Hope, no querendo for-lo.
No quero desapontar sua tia.
Aquelas palavras atravessaram seu corao ferido como um punhal. Ele fora muito duro em sua colocao.
Em pouco tempo, a pequena festa chegava ao fim e os convidados, um a um, deixavam a residncia.
Onde esto sua malas?  Richard perguntou.
	L em cima  Hope respondeu. E ajoelhando-se ao lado do filho, falou:  Meu amor, vamos colocar uma roupa mais confortvel?
J vou colocar o pijama?
	Oh, no! Lembra-se de quando lhe disse que moraramos com seu pai? Ento, este  o momento. Vamos nos aprontar para partir.
	Quer dizer que moraremos juntos e visitaremos tia Eloise sempre que eu quiser?
	Sim, meu bem.
	E posso levar meu urso?
	E claro!  dessa vez Richard respondeu.  H um grande quarto  sua espera. E tambm uma surpresa...
	O que ?
	S saber quando chegarmos l. Portanto, apronte-se!
	Vamos, mame, quero me trocar!  ele exclamou, afoito, pegando na mo dela.
	Espere. Antes preciso arrumar as coisas aqui.
	Deixe que dou um jeito em tudo.  Eloise no queria que ela perdesse um minuto sequer para comear sua nova vida.  Apresse-se ou Christopher no suportar tamanha ansiedade.
No caminho da nova casa, passaram em uma loja de brinquedos, onde o menino escolheu diversos deles.
	V com calma, Richard...  pediu Hope.
Franzindo o cenho, ele se virou.
	Comprarei para meu filho tudo o que quiser.
	O que no o tornar mais feliz, se no tiver um verdadeiro lar.
Hope no pretendia feri-lo, mas tambm no poderia permitir que o filho tivesse a prpria vida transformada em uma fantasia que poderia se desfazer a qualquer momento.
	No pode me impedir de dar a ele o que voc mesma no pde dar.
	Combinamos que decidiramos de comum acordo tudo relacionado a Chris.
	E estou cumprindo minha parte, afinal, est a meu lado, ciente de tudo.
	Christopher no precisa ter tudo o que pedir, isso o tornar uma criana insuportvel. Basta dar muito amor e carinho para que responda  altura.
	No precisa me ensinar a amar. Deveria saber o que era esse sentimento quando me deixou. E no me culpe por tentar faz-lo feliz.
De repente, Hope se viu em uma situao constrangedora. Na realidade, comeava a entender a atitude dele. Richard estava tentando compensar os anos que estivera afastado do filho e no poderia culp-lo por aquilo. O arrependimento tomou conta de seu corao. Como fora capaz de afast-lo do prprio filho, tirando-lhe o direito de ser pai?
Diante da casa, descarregavam a ltima mala. Richard levava os pertences de Hope para o quarto do fim do corredor, sendo seguido pelo filho.
	Vamos l, garoto, venha ver sua surpresa!
Os gritos de alegria de Christopher quebraram o silncio da casa.
	Mame, corra at aqui!
To curiosa quanto o filho, Hope se apressou. O quarto, originalmente de hspedes, havia sido reformado e decorado para receber Christopher. Era um verdadeiro sonho realizado.
	Oh, que lindo!  Hope exclamou, admirada.
Richard no se esquecera de um detalhe sequer. Desde a cama, um carro de corrida estilizado, at o ba de brinquedos, tudo estava em perfeita harmonia. Qualquer criana sonharia ter um quarto daqueles.
Christopher no conseguia conter sua alegria, e os olhos brilhavam de contentamento. No rosto de Richard, via-se a expresso de satisfao pela felicidade do filho. O olhar dele encontrou o de Hope. Ela caminhou at a cama.
	Gostar de dormir aqui?  perguntou-lhe, tendo a certeza da resposta.
	Voc estar l?  Christopher apontou para o quarto onde Richard depositara as malas dela.
	Sim, e seu pai ficar do outro lado do corredor.
Christopher subiu na cama e comeou a pular, feliz com seu novo quarto.
Hope sorriu e notou que Richard tambm sorria. Enfim, sentia-se mais aliviada. V-lo com um semblante ameno tornava as coisas menos difceis.
	Ento, onde deseja jantar?  A pergunta de Richard pegou-a de surpresa.  H um timo restaurante de comida italiana bem perto daqui.
	 uma boa ideia.
A caminho de casa depois do jantar, Christopher no resistira ao dia agitado e adormecera.
Ao chegarem, Hope pegou-o no colo e o colocou na cama. O menino resmungou um pouco, mas logo caiu em sono profundo.
Richard permanecera na sala. Ao descer a escada, ela se sentiu um tanto tmida. Enfrentaria seu primeiro desafio.
	Parece que ele adorou o novo quarto.
	Espero no ter exagerado.
Obviamente o comentrio tinha tudo a ver com o episdio na loja de brinquedos.
	Richard, desculpe-me sobre o que disse...
Apoiando a mo na parede ao lado dela, ele a interrompeu.
	Pensei sobre aquilo e sou obrigado a concordar. Comprar presentes para Christopher no me transformar em um verdadeiro pai. Tenho o pressentimento de que errarei muito at conquist-lo da forma correta.
Hope sorriu, sentindo o corao bater acelerado com a proximidade dele.
	Vamos deixar que o tempo se encarregue disso.
	Sim.  Ele se afastou, deixando-a completamente perdida.
 Estarei no escritrio se precisar de algo.
A frustrao dela no tinha como ser ocultada.
	Mas... achei que pudssemos conversar...
Bem, creio que no temos muito a falar.
	Poderamos ao menos brindar a um futuro promissor.
	Hope...  Ele suspirou.  Estou cumprindo meu papel, no me force a aceit-la como se tivesse esquecido o passado.
Em um mpeto, ela pegou seu brao.
	Voc no queria filhos, como pretendia que eu agisse? Tentei fazer o que era melhor para ns.
	Mas decidiu sozinha. Ento, por que voltar atrs depois de tanto tempo? Talvez porque no tivesse mais como viver  prpria custa.
	No!  Os olhos estavam marejados.  Est sendo cruel comigo. Sabe que eu no seria mesquinha a esse ponto. Alm do mais, tenho capacidade suficiente para dar todas as condies para meu filho. Depois de perder meu pai... bem, compreendi como  importante a relao familiar e a figura paterna.
	E achou que eu no estava disposto a manter essa relao com meu prprio filho?
	Eu no sabia.
	Ora, ento no me conhecia direito.
	Talvez no.
	O mesmo posso dizer a seu respeito. Nunca pensei que pudesse esconder algo to importante de mim.
	Desculpe-me.
	Desculpas no me faro recuperar os anos que se passaram.
	O que posso fazer?
	Essa  a questo: no h nada que possa fazer.
Hope teve de se esforar para no demonstrar seus sentimentos. Estava mais do que claro que Richard no a queria como mulher.
	E voc acha que podemos continuar casados?
	 a nica maneira de darmos uma famlia para Christopher.
	E nossos sentimentos no valem nada?
	Apenas o que sinto por ele.
Lutando contra as lgrimas, ela tentou pela ltima vez uma aproximao.
	Ao menos deixe-me ser sua amiga.
	Confio em meus amigos, Hope.
Mais uma dura constatao: Richard no confiava nela.
	Tomo o caf da manh s oito. Esse horrio est bom para voc?
	Sim, Richard.
	Fiz compras no supermercado, mas, se acha que precisa de algo, basta me falar para que seja providenciado.
Como ele conseguia ser to frio e calculista em uma situao to delicada?
Fascas se cruzavam nos olhares.
E inesperadamente, ele afastou, com a ponta dos dedos, uma mecha de cabelos que insistia em cair sobre a testa de Hope.
	Esqueci-me de dizer que seu vestido era maravilhoso.
A atitude a surpreendera e sua vontade era se afastar depois de tanta humilhao. Mas implorava no fundo de seu corao para que ele a tomasse nos braos e a beijasse. Porm, o encanto se quebrou com a voz masculina anunciando:
	Vejo-a pela manh.
Hope ficou imvel e o observou se afastar. Teria cometido um erro voltando a fazer parte da vida de Richard?

CAPITULO IV

	Mame! Mame!
. Hope se levantou e correu at o quarto do filho.
	O que aconteceu, meu amor?
A luz do corredor foi acesa, e Richard surgiu na porta. Ele encostou no batente e apenas observou a cena. Christopher abraou sua me fortemente.
	Quero dormir com voc.
	Tudo bem, mas pode me dizer por qu? Teve um pesadelo?
	No... apenas quero dormir com voc.
	Tem certeza de que est bem?  ela insistiu.  Est com medo de dormir sozinho?
	Sim.
	Mas seu urso est aqui.
	Quero voc, mame, por favor.
Hope afastou os cabelos dos olhos de Christopher.
	Que tal se eu dormisse aqui com voc?
Christopher ps o dedo na boca e respondeu:
	Tudo bem, mas posso dormir com o Dino tambm?
Richard atravessou o quarto, pegou o boneco e o ps ao lado do filho. Foi ento que Hope percebeu a situao delicada em que se encontravam. L estavam eles no quarto de Christopher, em trajes ntimos, na noite de npcias. Ela falou com' dificuldade:
	Estamos bem. Se quiser, pode voltar para seu quarto.
Richard se aproximou do filho.
	Christopher, quer que o papai v embora?
	Pode ir, papai.
Richard sorriu.
Est bem, vejo-os pela manh.
Assim ele deixou o quarto. Hope se acomodou ao lado do pequeno.
Boa noite, mame  ele murmurou.
Hope o beijou, e ambos acabaram adormecendo.
Quando abriu os olhos novamente, j eram quatro horas da manh. Com gestos delicados para no acordar Christopher, Hope levantou-se e caminhou em direo a seu quarto. Foi ento que percebeu uma figura esguia atrs de si.
	No queria assust-la  Richard disse.
	No esperava que ainda estivesse acordado.
	Ouvi voc sair do quarto de Christopher.
	Mas no fiz barulho.
	Meu sono  muito leve. Voc sempre d a Christopher o direito de escolha?
	Como assim?
	Pensei que ele iria querer dormir em seu quarto, mas voc lhe deu outra opo.
	Chris est ficando mais independente. Se fizer suas escolhas, ficar satisfeito com elas. Foi uma maneira que encontrei para evitar pequenos conflitos.
	No o imagino desacatando suas decises.
	Voc ter muitas surpresas ainda. Crianas que no so atendidas tornam-se verdadeiros monstrinhos.
	Acho que tenho sido mais um colega para brincar do que um pai. Tentarei prestar mais ateno. Ainda me lembro da poca em que Davie tinha...  Ele parou a tempo de mudar de assunto.  Observo como conversa com Christopher e a maneira como o trata. Voc  uma me perfeita.
	Meu melhor exemplo  minha prpria me.
	Sente muito a sua falta, no ?

	Sim.  Era o mximo que tinha condies de responder.
Richard fitou-a mais uma vez.
	Acho melhor voltar a dormir.
Hope no deu um passo sequer enquanto ele se dirigia para o quarto.
	Devo deixar a luz do corredor acesa?  perguntou, parado diante da porta.
	Seria bom.
Richard sentia-se inseguro. Hope o estava fazendo perder a cabea e isso no poderia acontecer. Dessa vez, no permitiria que Hope reconquistasse seu corao. Depois de tantas experin-
cias frustradas, aprendera a lidar com seus sentimentos e manter afastados todos que, de uma forma ou de outra, o ameaavam.
Perdera os pais quando ainda era criana e sofrera muito com isso. Sim, ele amaria e protegeria seu filho, mas no criaria uma relao ntima com Hope. Seria tratada como uma simples hspede em sua casa. Pelo menos, tentaria manter a devida distncia.
Eram oito horas da manh quando Richard entrou na cozinha e deparou com Hope fazendo o caf.
	Bom dia  falou, ao notar sua presena.
Ele pegou uma xcara e retribuiu o cumprimento.
	Christopher ainda estava dormindo quando eu desci  Hope informou, no sabendo o que mais poderia falar.
	Quando o vi, pareceu-me que estava em sono profundo.
Hope no sabia se continuava com aquela conversa que parecia no chegar a lugar algum ou se mudava o assunto. Aps alguns segundos, ficou pela segunda opo.
	Quer ovos mexidos?
O silncio era pior do que se ele simplesmente tivesse negado sua oferta.
	No, obrigado  respondeu, enfim.
	Tem algum compromisso para hoje  noite?  Hope reuniu todas as foras que tinha para manter a calma e a conversa em um tom cordial.
	No. Por qu?
	Tenho de ir para a casa de minha me, para uma ltima vistoria. No devo demorar, e posso levar Christopher comigo ou posso deix-lo aqui com voc.
Richard olhou para a xcara e depois levantou a cabea.
	Gostaria que eu fosse junto?
.    Faria isso?
Richard tomou um gole de caf antes de responder.
	Estamos casados, Hope. Se quiser que eu v, irei.
	Gostaria muito. Depois do almoo est bom?
	Est timo.  Levando sua xcara consigo, Richard foi para o escritrio.  Avise-me quando quiser sair.
Hope estava boquiaberta. Ela no sabia o que fazer ou qual atitude deveria tomar diante de cada situao. Mas Richard, ao contrrio, demonstrava segurana em cada palavra que dizia, como se o casamento deles tivesse regras que s ele conhecesse.
Hope estava com o filho na tarde do dia seguinte, quando ouviu vozes no andar inferior. Reconheceu-a como sendo de Jane e, como queria conversar com ela, desceu a escada. Mas parou diante da porta, sem coragem de avanar um passo mais.
Os dois amigos conversavam e riam como Hope nunca tinha visto antes. Em um gesto de camaradagem, Richard colocou uma das mos sobre o ombro feminino. Mesmo sabendo que Jane e Adam se amavam, Hope no pde evitar uma ponta de cime. Desde que voltara, Richard jamais lhe dedicara um gesto de carinho. O rosto enrubesceu de imediato, o que teve de disfarar quando Jane notou sua presena.
	Ol  cumprimentou, amigvel.  Passei para pegar alguns trabalhos que posso terminar em casa.
O sorriso de Jane era simptico, o tom de voz, acolhedor e sem nenhum sinal de maldade. O olhar de Hope dirigia-se para a mo de Richard, que ainda se encontrava sobre o ombro de Jane. Percebendo, ele logo se colocou atrs da mesa.
	Hope, que tal sairmos um dia desses para fazermos compras juntas? Ou ento podemos jantar fora  o convite parecia sincero.
	Adoraria, seria uma boa ideia.
	Verei quando Adam poder cuidar de Matheus. Ele no gosta de chamar uma bab a no ser que seja mesmo necessrio.
	Onde est Matheus?
	Com o pai. Ele tirou o dia para cuidar dos filhos.  Jane arrumou suas coisas, preparando-se para partir.  Tenho de ir agora. Vamos fazer um churrasco hoje e prometi a Adam que compraria alguns doces para sobremesa.  Ela pegou a bolsa e dirigiu-se  porta.  Aguarde uma ligao minha.
Assim que a porta se fechou, Hope fez um comentrio:
	Ela me parece muito, gentil.
	Posso lhe garantir que Jane  muito mais do que isso.
O que ele queria dizer com tanta segurana?
	Adam e ela so casados h muito tempo?
	Faz trs anos.
	Voc a conhecia antes se casarem?
	Por que tantas perguntas, Hope?
	Apenas curiosidade.
	Conheci Adam primeiro  ele respondeu, no acreditando no motivo apresentado.  Em que est pensando?
	Nada em especial. E que vocs, Jane e voc... parecem to... ntimos.
	Trabalhamos juntos e somos grandes amigos, essa  a verdade.
	Entendo.
		Gostaria que fosse mais clara em suas observaes.  Richard parecia um pouco irritado.
Hope se comprometera a nunca mais ocultar seus sentimentos de Richard, se quisesse ter com ele um relacionamento sincero. Mas admitir que o sentira quando chegou ao escritrio seria muito difcil.
	Parece-me que Jane  a mulher perfeita a seus olhos. D a impresso de que se sente muito bem ao lado dela.
Digamos que ela faz as pessoas se sentirem bem.
Richard no estava sendo claro em suas palavras, o que a obrigava a ser mais incisiva:
	Por acaso, incomodou-se quando eles se casaram?
	Adam  meu melhor amigo.
	No respondeu minha pergunta  ela insistiu. 
	No.  Adam e Jane foram feitos um para o outro. Ningum poderia interferir no relacionamento deles.
Hope ainda no se dera por satisfeita.
Sente-se atrado por ela?
Sua voz mudou de tom.
	Droga, Hope! Por que o interrogatrio? No h nada entre mim e Jane. Alm do mais, estou casado com voc.
	O que nada significa para voc.  Suas palavras no poderiam ter sido mais duras.
Mesmo ofendido com o que acabara de ouvir, Richard tentara manter a calma; afinal, at ento ele realmente no dera nenhuma demonstrao de que estava satisfeito com aquela situao.
	Como j lhe disse, Jane  minha colega de trabalho e amiga. Gosto dela, pois  uma pessoa fcil de se relacionar, sincera, honesta e consegue entender muito bem as pessoas. Mas  s. No a quero em minha cama. No desejo que ela e Adam se separem. Satisfeita?
	Richard, fiquei com cime.  Depois da confisso, ela saiu do escritrio para dirigir-se  cozinha, deixando-o perplexo e sem saber o que fazer.
O jantar transcorreu em ambiente tranquilo. Pareciam dividir uma cumplicidade depois dos acontecimentos da tarde. Juntos, compartilharam da agradvel tarefa de pr Christopher para dormir.
Hope sentou-se no sof e tomou nas mos um livro que comeara a ler na noite anterior. Richard acomodou-se em uma poltrona. Surpresa por ele no ter ido ao escritrio como de costume, Hope perguntou:
	No vai trabalhar esta noite?
	Sim, mas antes preciso lhe dizer que vou viajar.
	A trabalho?
	Sim, parto domingo  noite.
	E vai acompanhado?
Richard sorriu. Sabia, no fundo, qual a inteno daquela pergunta.
	Oh, no. Jane normalmente no vai comigo. Preciso lhe dizer... Em nosso servio, ela tem um dom muito especial: Jane  sensitiva, ento tem mais facilidade em localizar as pessoas. Nossos clientes confiam muito nela. Sei que  difcil de acreditar, mas...
	Ora, Richard, por que duvidaria de voc?
	No sei, mas a maioria das pessoas no acredita em para-normalidade. Mas ela me convenceu de imediato quando as filhas de Adam haviam desaparecido e Jane conseguiu localiz-las sem uma pista sequer. Jane  mesmo impressionante!
O entusiasmo na voz dele fez com que o brilho nos olhos azuis se apagasse.
	Hope, no h motivo para sentir cime. Prometi que lhe seria fiel, e assim agirei.
	Est arrependido?  ela perguntou, temendo a resposta.
	Estamos casados h pouco tempo para existir arrependimento.
	Sinto que a nica coisa que nos une  Christopher.
	Infelizmente, no posso fazer mais que j fao.
Richard queria dizer que ainda no estava preparado para confiar nela, Hope sabia.
Richard, agora de p, deu alguns passos at o sof. Seus olhares se cruzaram. Ele sentou-se a seu lado sem pronunciar uma palavra sequer. O momento parecia propcio para um contato mais ntimo. O beijo era inevitvel. Os corpos se juntaram e o desejo aumentou. As mos de Richard comearam a deslizar pelo corpo de Hope, explorando cada centmetro da pele macia. Atingiram os seios, e ento ele percebeu que Hope estava extremamente excitada. Seus mamilos estavam enrijecidos. Richard continuou com as carcias. Queria redescobrir cada segredo do corpo dela.
Hope tentava desesperadamente raciocinar. O beijo fora inesperado e ao primeiro toque de Richard suas dvidas desapareceram e suas esperanas renasceram. Talvez ele pudesse perdo-la. Talvez tivesse entendido o porqu de ela t-lo deixado. Mas naquele exato momento aquilo no tinha a menor importncia. Hope entregou-se aos carinhos de Richard desejando que ele a levasse at o paraso, onde os beijos e as carcias faziam dos corpo uma nica alma. Hope no se conteve. Sussurrava o nome do homem que ainda amava, suplicando por mais.
Mas ento tudo pareceu desmoronar. Richard se afastou bruscamente.
Isso  suficiente, Hope.
Ela estava confusa. At um segundo atrs tudo estava bem.
	O que h de errado? Estamos casados Richard, entendo se quer...
	O que quero no tem nada a ver com isso. E, por favor, no tente usar seu corpo para derrubar as barreiras que nos separam.
	E como tem tanta certeza de que estou fazendo isso?
	 o que estou tentando descobrir. Casando-se comigo, conseguiu segurana e um pai para seu filho. Acha que poder me recompensar com seu corpo?
O corao de Hope se apertou. No imaginava que a desconfiana de Richard pudesse torn-lo um homem sem sensibilidade.
	Nada que eu lhe diga mudar a maneira como se sente ou como pensa. Ento, ter de descobrir sozinho. Mas lembre-se: no fui eu quem comeou tudo isso. O beijo que trocamos nada tinha de falso.
Ela se levantou e subiu a escada sem olhar para trs.
Ao ouvir o barulho de chave na porta, Hope deixou o tric sobre a mesa lateral. Seis dias haviam se passado desde a cena do beijo. Quando Richard partira, Hope comeara a tricotar uma blusa para ele. Seria seu presente de Natal. Era sua forma de acreditar no futuro que poderiam compartilhar juntos. Mas, para que isso acontecesse, Hope teria de tomar algumas decises.
A primeira delas seria no tentar outra aproximao com Richard. Se ele quisesse uma relao mais profunda, ento teria de dar o primeiro passo.
A segunda deciso seria procurar um emprego o mais breve possvel.
Richard entrou na sala e ps sua mala ao lado do sof.
Fez boa viagem?  perguntou Hope.
	Sim, mas o sucesso depender de alguns telefonemas.  Ele olhou em direo  escada.  Tudo bem por aqui?
	Sim. Christopher acabou de dormir.
Senti muito a falta dele  Richard admitiu, emocionado.
Hope decidiu falar sobre a ideia de arranjar um emprego.
	Tenho um compromisso amanh  tarde. Se quiser, pode ficar com ele.
	Aonde voc vai?
	Vou fazer uma entrevista em um berrio.
	Entendo.
Richard teria entendido realmente que ela pretendia acabar, aos poucos, com a dependncia que criara desde que voltara para Los Angeles?
	E talvez tenha de conhecer as dependncias da escola, portanto, posso chegar um pouco mais tarde.
	No h problemas. Ficarei com Christopher. E no se preocupe com o jantar, providenciarei tudo.
	Mas, se tem outro compromisso, posso falar com tia Eloise.
	J disse que pode ficar tranquila  ele respondeu, com um sorriso nos lbios.
	J jantou? Posso preparar algo bem rpido.
	Obrigado.  Mas parecia nem ter prestado ateno  pergunta. Seus olhos percorriam cada palmo das pernas bem torneadas.
Hope sabia que exercia sobre ele um fascnio, e a mesma coisa acontecia com ela/Mas lembrou-se de suas decises e no estava disposta a abrir mo de sua dignidade.
	Como o pequeno tem dormido?  ele perguntou em um murmrio, como se estivesse tentando desviar a ateno.
	Muito bem. Sentimos muito sua falta, Richard.
Ele a fitou como se buscasse permisso para dar vazo a seus instintos.
Mas Hope permaneceu impassvel, sustentando o olhar firme. Ele a provocava mais e mais, com a boca, com os gestos das mos. Porm, no tomava nenhuma iniciativa.
No, ela deveria se retirar se no quisesse sucumbir aos desejos mtuos. Em um mpeto, levantou-se.
	Boa noite.  Saiu da sala, com passos apressados, sem olhar para trs.
A tarde transcorria agradvel na companhia de Christopher. Ao v-lo brincar no balano, Richard refletia sobre a viagem que acabara de fazer. Em outras pocas, aquilo no passaria de uma rotina que no o incomodava. No entanto, depois de conhecer o filho, tudo mudara, e ficar ausente de casa tornara-se uma tortura.
	Papai, olhe!  O pequeno chamou sua ateno.
Richard olhou para cima e sentiu o corpo gelar. Seu filho estava de p a. Instintivamente correu na direo dele e o segurou pela cintura.
	No fique de p no escorregador. Sente-se e escorregue.
Os olhos de Christopher demonstraram surpresa, para, logo aps, desafi-lo.
	No quero me sentar!
	Sente-se, Christopher.
	No!
A porta da cozinha bateu, e Hope surgiu no jardim. Ela usava um vestido da mesma cor de seus olhos e sapatos de saltos altos, que alongavam mais suas pernas. Caminhou em direo a eles.
Richard suspirou.
O comportamento do menino mudara ao ver a me, o que foi notado pelo pai. Foi ento que ele percebeu que estava sendo testado.
	Tenho de ir, seno me atrasarei.
	Pode ir  Richard disse, lanando um olhar para o filho.  Ficaremos bem.
Hope sentiu algo no ar, mas preferiu acreditar nas palavras de Richard. Aps um aceno, deixou-os brincando. Os saltos faziam com que seu andar ficasse sensual, despertando nele um sentimento que queria negar a qualquer custo. Enganara-se ao pensar que a viagem servira para diminuir a atrao que sentia por ela.
A duras penas, Richard conseguiu controlar os nimos do filho, e se divertiram bastante.
A noite j avanava quando Richard se viu em maus lenis. A cozinha estava uma verdadeira baguna, e o pequeno gritava de fome. Onde estava com a cabea quando afirmara que daria conta de tudo sozinho?
Mesmo quando fora casado com Mary Beth, nunca passara por tais apuros, pois sempre tinha sido o tipo de pai que se fazia presente apenas nas horas das brincadeiras. Os deveres eram deixados para a ex-esposa.
Em pouco tempo, pde perceber que Christopher herdara dele o gnio teimoso e obstinado. A criana parecia ignorar qualquer atitude sua de conciliao e de boa vontade.
Respirou aliviado quando ouviu a porta da frente se abrir, mas ao mesmo tempo temeu pela reao de Hope. O que pensaria dele diante de tamanha desorganizao? Mas surpreendeu-se quando viu que a primeira reao dela foi de abraar o filho fortemente, como se no o visse havia anos.
Como passou o dia?  perguntou ao garoto, que estava molhado e com a boca suja de chocolate.
	Tudo bem  Christopher respondeu, com ar maroto.
	Ainda no jantamos  Richard interveio.  Estou tentando preparar algo.
	Vamos fazer o seguinte, meu amor: tomaremos um banho rpido, assim poderemos ajudar seu pai, est bem?
O menino concordou com um gesto de cabea. Hope tomou-o nos braos e sorriu para o marido. Como conseguia manter o autocontrole com tanta facilidade? Em seu lugar, teria explodido, ele admitiu.
Em poucos minutos, me e filho estavam de volta.
	E agora, ao jantar!  ela exclamou.  Voc vai para a sala brincar um pouco, e logo mais o chamarei, est bem?
Christopher parecia outra criana. Obedeceu-a sem pestanejar. Richard estava boquiaberto.
	Voc  incrvel!
Ela riu.
	Oh, nada que trs anos de experincia no resolvam.
	Bem, eu poderia comear desde j, e nem em cem anos seria capaz de super-la.
	No exagere. Aos poucos perceber a fora e as fraquezas de um garotinho.
Discorreram sobre mtodos de educao e riram muito ao descobrir como uma criana tem a capacidade de dominar os adultos desde pequeninas.
	Hoje descobri como cada uma  diferente da outra  ele comentou.
	Christopher o faz lembrar de Davie, no ?  Hope perguntou delicadamente, para no feri-lo.
	Sim, mas, apesar da semelhana fsica, so crianas completamente diferentes.
O silncio pairou no ar.
Richard tomou conscincia de que Hope poderia t-lo bombardeado com crticas a respeito de suas opinies, mas ela preferiu se calar.
	No conseguiria nunca igualar-me a voc.  Ele mudou de assunto.
	Bobagem! As vezes, Chris tambm me tira do srio.  Hope estava sendo gentil, ele sabia.  Pelo menos, a casa ainda estava de p quando cheguei.
Ambos riram da observao. Richard se sentiu  vontade para aproximar-se dela e sentir o perfume feminino. Estava surpreso com a leveza de seus movimentos e com a desenvoltura que tinha adquirido na cozinha. Em pouco tempo, tudo estava em ordem, e ela, impecvel.
Hope, por sua vez, sentia-se contente por estar desfrutando de momentos to agradveis. Enfim, estavam conversando como um casal de verdade.
A proximidade dos corpos fez com que tremesse da cabea aos ps. Richard no se intimidou, e seus lbios quase encostaram nos dela.
	Este  mais um teste?  ela perguntou, em um murmrio.
Ele levantou a cabea.
	Ponto para voc.  Afastando-se, frustrado, Richard tentou se recompor.  Colocarei os bifes na frigideira.
Mesmo arrependida de suas palavras, Hope estava consciente de que agira de forma correta. Deveria reconquistar a confiana e o respeito dele, e s conseguiria aquilo  custa de muito sacrifcio, nem que para isso tivesse de amargar a frustrao do desejo no satisfeito.
Horas mais tarde, Christopher se deitava na cama. Richard estava a seu lado, contando uma histria. Hope ficara na varanda, descansando.
Em pouco tempo, ele estava a seu lado, recostado na grade. Hope no esperava por sua companhia.
	Como foi a entrevista?
	Agradvel. A vaga j  minha.
	Gostaria que no aceitasse o emprego.
	No sei se seria correto. Quero contribuir no pagamento das despesas.
	Posso faz-lo sem problemas  ele afirmou.  A no ser que tenha outros planos.
	Como por exemplo...
	...poupar para quando quiser partir  Richard completou.
	Isso no passou pela minha cabea. Ou quer me dizer que prefere me ver longe daqui?
	E claro que no! Assumi uma famlia e a responsabilidade de cuidar dela.
	Sim, mas tenho minha parcela nessa relao.
	Sua responsabilidade maior  educar nosso filho.  Richard estava sendo categrico.
Ela no queria se ver dependente financeiramente dele ao mesmo tempo que sabia que ele ficaria ofendido se aceitasse o emprego.
D-me um tempo para pensar  ela pediu.
No se esquea de que Christopher vem em primeiro lugar.  Richard se afastou da grade e aproximou-se dela. Em vez de irritada, sua voz soou suave.  Quando decidir, tente pensar em seu filho e no no que est acontecendo entre ns.
Mas se nem ela sabia definir o que havia entre eles, como poderia levar aquela unio em considerao? E Christopher estava acima de tudo, desde o dia em que soubera que estava grvida.

CAPITULO V

Era sbado e, como de costume, Richard jogava I basquete com Adam no Centro Comunitrio.
	Jogando srio hoje?  perguntou Adam.
Richard estava atento, esperando pela melhor oportunidade para roubar a bola de seu adversrio.
	Sempre jogo para ganhar.
Adam tentou o arremesso, mas foi impedido pelo adversrio.
	Proponho o seguinte: voc ganha e vamos descansar.  Adam repousou as mos sobre as coxas, pois estava exausto.
	O que h? Est velho demais para uma boa partida?
Adam roubou a bola de Richard e comentou:
	Voc jogou com Oscar, Lorenzo e Joe antes de eu chegar aqui.
Era hbito de Richard frequentar o Centro Comunitrio, o lugar que o tinha salvo das ruas quando jovem e imprudente.
	So adolescentes que no tm tcnica alguma. Com voc preciso usar a cabea, alm do esforo fsico.
	Ento, como vai o casamento?  O amigo mudou drasticamente de assunto.
	Bem... Estamos cuidando de Christopher com muito carinho.
	Vinte e quatro horas por dia? Inclusive depois que  garoto dorme?
Richard encolheu os ombros, mas no ousou admitir que no era capaz de ficar em seu escritrio sem pensar em Hope.
	Tenho me dedicado muito a ele. Conviver com uma criana exige muita dedicao.  Richard lembrou-se do dia em que quase perdeu o controle da situao.  E Christopher tambm est aprendendo a conviver comigo.
Adam sorriu.
	Se voc quer dizer que est tentando ignorar o fato de estar casado com uma mulher bonita e inteligente, esquea!
Richard devolveu a bola para o amigo e se afastou. Olhou para o prdio, que precisava de uma reforma, depois desviou o olhar para os adolescentes nas outras quadras.
	No h muitos jovens aqui hoje.
Adam no aceitou a mudana de assunto.
	Voc no pode fugir de seu casamento.
Richard sabia que seu amigo no desistiria.
	Fugir? Estou tentando torn-lo o melhor possvel  Richard retrucou.
Adam persistia para tentar ajud-lo, mas o efeito estava sendo justamente o contrrio.
	J considerou como a morte de Davie tem afetado voc?  Adam indagou, com olhar srio.
O silncio tomou conta dos dois amigos durante um tempo.
	Claro que sim. Sua morte foi o motivo pelo qual desisti de ser policial e tambm a razo do fracasso de meu primeiro casamento.
	Mais do que isso, tornou-se uma pessoa incapaz de confiar em algum. Na poca em que era policial, fazia tudo guiado por sua coragem, sabedoria e experincia, mas, quando o assunto era Davie, parecia que perdia o controle da situao.
	Ento aonde quer chegar?
	Tem medo de se envolver sentimentalmente. Cria barreiras entre voc e as pessoas que mais ama.
	Eu me entreguei uma vez a Hope  Richard murmurou, lembrando-se da noite em que ela o chamara com volpia.
	Est dando a ela uma chance agora?
Richard esqueceu as recordaes.
	Outra chance para me destruir de novo? Acho que no. No sou to inocente.
	Sei disso. Est bravo, pois teve de amadurcer muito rpido. A morte de sua me, a morte de Davie, o fim de seu casamento, Hope o abandonando s vsperas da cerimnia. Aonde esse dio vai lev-lo?
	No  dio, apenas estou me protegendo. No se preocupe comigo, pois conheo as regras, e Hope tambm. Estamos tentando chegar a uma convivncia pacfica, e futuramente conseguiremos.
Adam o driblou.
O Natal est chegando  lembrou o amigo.
O comentrio parecia totalmente fora do contexto.
	E da?
	Talvez lhe traga a paz que tanto procura. Talvez lhe traga at mais.
Richard no teve tempo de responder, seu amigo se adiantara e marcara um ponto.
A campainha tocou naquela tarde de domingo. Como Richard estava no quarto com o filho, Hope achou melhor atender  porta.
Diante de seus olhos estava um homem alto, por volta de seus sessenta anos.
	Ol, senhorita. Deve ser a jovem que me deixou a mensagem.
	No, eu...
Ele pareceu no se importar, pois sorriu e continuou a falar:
	Estava viajando a negcios e cheguei hoje de manh. Desculpe-me incomod-la, mas no pude esperar at amanh para conversar com Richard.
	Por que no entra?
	Meu nome  Harv.  Ele tomou a mo de Hope entre as suas e a cumprimentou.  O recado dizia que Richard conseguiu uma pista sobre o paradeiro de Bernardette. No acredito que, aps tantos anos, irei rev-la. Imagine, no sei se Richard lhe contou, mas ns ramos namorados na faculdade.
No parecia importante que Hope no fosse a pessoa que deixara a mensagem para Harv. Ele a estava confundindo com Jane. O senhor parecia to ansioso sobre o que Richard havia descoberto que nada mais parecia ter valor.
	Estudvamos em Houston  ele continuou.  Quem poderia imaginar que Richard iria ach-la em Santa Mnica?
	H muito tempo est  procura dela?
	Na realidade, no. Mas a culpa  toda minha. Enquanto estive na Marinha, recebi vrias cartas, mas no respondi uma sequer. Era um jovem tolo. Depois, a vida foi tomando um rumo completamente diferente, e ento me dei conta de que sentia a falta dela.
	Estou contente que tenha progredido em sua busca.
	Sou vivo h sete anos e espero que ela tambm esteja livre.
	Espero que a encontre.
	Se isso acontecer... Ela  tudo de que preciso.
	Sei que Richard  bom no que faz. Deve ter uma boa notcia a lhe dar.
	Boa tarde, Harv.  Richard viera por trs de Hope sem que ela notasse sua aproximao.  Vamos para meu escritrio.
Seu tom de voz demonstrava que queria ficar a ss com o homem, no que foi prontamente atendido.
	Foi um prazer conhec-lo, sr. Harv. Espero que tenha sucesso em sua busca.  Aps os cumprimentos, ela saiu para a cozinha.
Pelo olhar que Richard lhe lanara, algo estava por vir.
Escutou a porta se fechar depois que o marido se despediu do senhor.
	No deveria ter falado daquela forma com Harv.
	Desculpe-me?  As sobrancelhas franzidas demonstravam assombro.
Richard manteve a distncia, com as mos no bolso.
	Harv  meu cliente.
	Sei disso.
	Dou a meus clientes fatos, e no esperanas.
	No estou entendendo. Ele disse que voc tinha uma pista e que sabia que Bernardette estava em Santa Mnica...
	Sim, tenho uma pista, mas  s. Voc o deixou esperanoso, e agora ele acha que ficaro juntos. Mesmo que eu a encontre, e se ela no quiser nada com ele?
	Harv no mudou de comportamento desde o momento em que abri a porta. Tudo o que fiz...
	Foi lhe dar mais esperanas. Tenho meu negcio e obedeo certas regras, portanto, no se intrometa em meu servio.
Aquilo era demais, no poderia permanecer calada.
	Como pode dizer isso para mim, se se acha no direito de se meter em minha vida e sugerir para eu no aceitar um trabalho? Isso parece sensato para voc?
Richard manteve sua posio.
	No misture as coisas. A educao de Christopher depende de sua permanncia em casa.
Hope teve vontade gritar, mas se conteve.
	Talvez seja melhor que faa uma lista com os assuntos sobre os quais me permita dar opinies.
	No seja tola!
	Pare para pensar antes de me recriminar.
	Tenho um negcio e preciso zelar por ele, apenas isso. Meu futuro depende de meus clientes e, se eu os enganar, tudo estar perdido.
	Tudo o que fiz foi conversar.
	Tudo o que fez foi interferir, isso sim! Tive de trazer Harv de volta  realidade.
Ela voltou a preparar o jantar.
	Tudo bem, ficarei longe de seus clientes. E quando a campainha tocar, s a atenderei com sua permisso, estamos combinados?
	Hope...
Ela no desviou mais a ateno de seus afazeres. O telefone tocou, e Richard hesitou em atender. Mas a insistncia fez com que se retirasse dali.
Mais uma vez, a conversa havia acabado em discusso. Que tormento! Mas ela no desistiria. Iria at o fim no sonho de v-lo amando-a novamente.
Em seu escritrio, Richard analisava os papis referentes ao caso Harv e concluiu que parecia um pouco mais complexo do que pensara.
Ele tentava se concentrar no assunto, mas qualquer barulho desviava sua ateno. Agora era a campanhia do forno e os passos de Hope a subir a escada, indo acordar o filho.
No queria admitir, mas ela o tirava do srio. Tentou em vo convencer-se de que seu mundo deveria girar em volta do escritrio e de Christopher. Ela o perturbava a ponto de mexer com seus hormnios havia muito adormecidos.
De repente, desligou o computador e foi at o quarto de Christopher.
O menino acabara de acordar. Hope estava sentada na beirada da cama recolhendo os livros espalhados. Antes de Christopher dormir  tarde ela o deixava olhar seus livros favoritos. Richard se admirava da maneira como Hope ensinava e preparava seu filho para o futuro, a maneira como o fazia adquirir bons hbitos e despertar sua curiosidade para tarefas educativas, sem que a prpria criana percebesse.
Finalmente Christopher bocejou e foi para o colo da me.
	Mame, e seu sorriso?
A pergunta do garoto fez um sentimento de culpa se alastrar pelo peito de Richard. Era da natureza dela ser alegre, especialmente com Chris. Mas, naquele exato momento, parecia triste, e Richard desconfiou que tinha algo a ver com a conversa deles.
Ele entrou no quarto e no esperou Hope responder. Sentou-se ao lado de Christopher e murmurou em seu ouvido:
	Acho que ela o esqueceu l embaixo na cozinha ao lado da comida. Quer que eu v buscar?
	Sim.
	Tudo bem, volto logo, ento.
Richard correu para a cozinha e pegou uma panela. Depois subiu a escada correndo, entrou no quarto e ps a panela na frente de Hope.
Aqui est, senhora, seu sorriso.  E abriu a tampa.
Havia muito ele no parecia to divertido. Na realidade, esquecera-se de como era bom agir descontraidamente.
Hope no pde fazer nada, a no ser rir da brincadeira.
	Olhe que sorriso bonito!  disse para Christopher. Colocando a panela no cho, Richard se curvou diante dela.  Desculpe-me. Tambm senti falta de seu sorriso.
Ele se dera conta de como suas palavras a atingiram.
Trs dias depois, estavam sentados no sof da casa de Jane. Christopher mantinha-se inerte ao lado me.
	Estou fazendo um ch de ervas  disse Jane, amigvel.
	Obrigada por ter nos convidado para jantar.
Adam e Richard estavam em uma reunio no Centro Comunitrio. Jane os convidara para a refeio em sua casa, assim poderiam conversar  vontade, e as crianas brincariam um pouco. Logo aps o jantar os menores dormiram, cansados.
Hope necessitava mesmo de uma amiga, e Jane demonstrava ser a pessoa ideal, mas poderia confiar nela sendo to amiga de Richard? Resolveu tentar.
	Richard lhe disse algo sobre nosso casamento?
	No muito. Alis, ele pouco fala sobre o assunto. Sei apenas que voc o abandonou tempos atrs e que agora voltou com um filho.
	Estou surpresa de voc ser gentil comigo. Afinal,  amiga de Richard.
Jane sentou-se na frente dela.
	No costumo julgar as pessoas. Todos cometemos erros, normalmente acidentais.
	Adam no concorda com nosso casamento, no ?
	Adam queria que Richard tivesse certeza do que estava fazendo.
	Ele sempre sabe o que faz  murmurou Hope.
Jane sorriu.
	Acredita naquela postura de super-homem que ele adota?
Hope suspirou.
	Bem... s vezes, sou obrigada a isso. Na verdade, Jane, gostaria que me ajudasse.
	E como fazer isso?
	Richard contou-me sobre... seus dons sobrenaturais.
	E ento...
	Consegue ver algum futuro em nosso relacionamento?
	Deixe-me explicar, Hope  ela disse, de forma gentil.  Minha percepo  quanto ao presente, vibraes que me so transmitidas no momento. E entre vocs sinto uma fora muito grande que os mantm unidos.
	Christopher...
	Alm dele, algo mais profundo.
	Talvez seja o motivo que ao mesmo tempo nos afasta. No consigo faz-lo entender por que me afastei no passado.
	Hope, d-lhe um tempo. E muito amor. E se, mesmo assim, Richard no entender, ento, sim, dever ser radical em relao a vocs.
	Como pode ter tanta certeza disso?
	Isso no tem nada a ver com sensitividade. Adam e eu tambm tivemos problemas em nosso casamento, que apenas supera mos com muito amor e confiana.
	Pois falou a palavra-chave: confiana.  Hope sentia-se  vontade para falar.
Conversaram durante muito tempo at que o telefone tocou. Depois de alguns minutos, Jane colocou o fone no gancho e foi atender  porta. Adam e Richard haviam retornado.
	Ainda bem que voltaram.  Jane suspirou aliviada diante dos olhares preocupados.
	O que houve?  perguntou Adam.
	Estava conversando com Hope quando o telefone tocou. Era um advogado de Phoenix, que est  procura da filha. Ele soube que ela est muito doente,  beira da morte. Quer saber se podemos atend-lo, antes que seja tarde demais.
	Vai aceitar?  perguntou Adam.
Jane olhou para Richard e respondeu:
	Sim.
	Quando quer partir?  indagou Richard.
	O que acha, Adam?  a esposa lhe perguntou, aflita.
	Bem, posso trabalhar em casa para tomar conta de Matheus. Se tiver alguma emergncia no escritrio, ligarei para a sra. Haynes.
	Tem certeza?
Adam abraou a esposa.
	 claro!
Hope olhou para Richard.
	E melhor voltarmos para casa, assim poder arrumar as malas.
	Christopher est dormindo?
	No sof.
	Vou peg-lo.
Entraram no carro aps as despedidas.
Richard no desviava sua ateno da estrada.
	No sei quando voltarei  disse, com as mos fortes ao volante.
	No se preocupe, estaremos bem.
	No me sinto confortvel por ter de deix-los novamente.  Ele hesitou.  Assim que chegarmos ao nosso destino, ligarei dando-lhe um nmero para contato.
	Christopher e eu estamos acostumados a ficar sozinhos.  Havia um tom de tristeza naquelas palavras.
	Mas vocs no esto mais sozinhos.
Ser que ela ouvira bem e seu marido parecia preocupado com eles?
Enquanto Richard arrumava as malas, ela levava o filho para a cama.
Lembrou-se de algumas roupas que estavam na lavanderia. Talvez Richard precisasse delas.
Voltou ao quarto dele com as roupas empilhadas nos braos.
	Escrevi o nmero do telefone do hotel onde vou ficar  ele avisou.  Caso eu no esteja l, deixe recado. Se possvel, a recepcionista ter um nmero de contato.
Estaria ele to preocupado em mant-la informada sobre seu paradeiro? O que esperava? Que desaparecesse de novo? Com cuidado, dobrou algumas peas de roupas e as entregou a Richard. Ao faz-lo, suas mos se tocaram, criando um clima de intimidade. Seus olhares se cruzaram, mas Richard no fora capaz de sustentar. Desviou sua ateno e tornou a arrumar a mala.
	Esperarei por voc para fazermos as compras de Natal Hope disse, tentando amenizar o mal-estar. Ao observ-lo manipular as roupas, no pde deixar de se lembrar das vezes em que aquelas mesmas mos a acariciaram no passado.  Sentirei sua falta.
Richard sorriu, mas no queria alimentar falsas esperanas.
	No se esquea de ligar o sistema de segurana  noite ou quando sair.
	Sim.
	E se se esquecer do cdigo...
Ela no se recordava de tanta preocupao quando ele viajara na semana anterior.
No se preocupe, Richard, minha tia poder me ajudar.
Obviamente, cometera um erro confessando-lhe que sentiria sua falta, mas sentiu necessidade de faz-lo.
Tempo. Era do que precisavam.
	Tome o caf da manh conosco, assim Chris poder se despedir de voc.  E para evitar que seus sentimentos a trassem, Hope preferiu se retirar para seu quarto.
L, sentou-se diante da penteadeira. Observou o mvel demoradamente e lembrou-se dos cuidados de Richard.
	Ele se preocupa conosco  ela murmurou, com um leve sorriso nos lbios.
"Sentirei sua falta". As palavras doces de Hope ecoavam em sua mente, fazendo o corpo estremecer. Cada dia era uma nova batalha para manter-se afastado dela, para impedir que o desejo tomasse conta dele.
Richard refle tia enquanto olhava pela janela do avio. Seu corao palpitava sempre que se lembrava dela, e deix-los em Los Angeles tornava-o mais amargurado. Era como se Hope significasse para ele um porto seguro, a tranquilidade com a qual poderia contar sempre que estivesse a seu lado. Mas no, no suportaria sofrer novamente. Deveria pensar em Christopher como o nico motivo para sustentar o casamento. No havia outra razo para manter aquela unio...
Olhou para o lado e admirou-se com o semblante despreocupado de Jane, adormecida. Havia quanto tempo no dormia adequadamente? No era para menos que se sentia to cansado.
Hope tricotava sem parar a fim de que a blusa de Richard ficasse pronta at o Natal. Para sua sorte, achara uma camisa que combinava perfeitamente com o presente.
Quando o telefone tocou, ela se apressou a atender.
	Ol  disse a voz do outro lado da linha. Havia dois dias que Richard partira, e em nenhum instante deixara de pensar nele.
	Ol. Como vo as coisas?
	Estamos no caminho certo, pelo menos  o que Jane diz. Tenho aqui o telefone do hotel onde estamos.
	Ento no tem ideia de quando vai voltar?
	Minha previso  de que tudo estar solucionado em dois dias, mas so apenas hipteses. Teria ligado ontem se no tivssemos chegado to tarde.   .
Bem, ele poderia ligar a qualquer hora, pois no a incomodaria. Mas ela no teve coragem de falar aquilo.
	Voc est bem?  Hope no se conteve em perguntar, mesmo sabendo que Richard se tornava distante sempre que demonstrava interesse por ele.
	Sim.  Richard no queria falar sobre si, estava preocupado com Hope e seu filho.  Como est Christopher?
	Oh, no poderia estar melhor! Fomos ao mdico, e ele se assustou com o desenvolvimento de Chris.
	Mas tudo est bem? Quero dizer, foi uma visita de rotina?
	Sim, sim  ela se apressou em confirmar.  Richard, no sei se este  o melhor momento, mas queria lhe dizer que cheguei a uma concluso a respeito do emprego.
	E ento?  ele parecia ansioso.
	Pensei bem e resolvi abrir mo dele. Ficar cetn Christopher  minha prioridade. Gostaria apenas de poder concluir meu curso. Assim, poderei lecionar quando ele no exigir mais tanta ateno. Tia Eloise poder cuidar dele no perodo do dia em que eu estiver ausente.
	E muito importante para voc, no ?
	Voc sabe que sim.
	Est bem, poderemos discutir os detalhes assim que chegar em casa.
Conversaram mais um pouco, at que se despediram. Aps desligar, Hope imaginou se ele no sentira sua falta ao menos um pouco.
Um barulho de chave a girar na fechadura chamou-lhe a ateno, e logo Hope estava de p.
Ao abrir a porta, os olhares se cruzaram, e Richard pde perceber como a esposa estava deslumbrante. Uma blusa cor-de-rosa de tric moldava seu corpo de forma delicada, e a curva dos seios estava deliciosamente aparente.
Pensara nela a todo instante, e encontr-la  sua espera era uma grata satisfao.
	Seja bem-vindo  ela o saudou.
Richard deixou a mala cair ao lado da escada.
	Presumo que Christopher esteja dormindo.
	H mais ou menos uma hora. Se soubesse de sua chegada, estaria acordado.  E era verdade. O menino perguntava todos os dias pelo pai.  Foi bem-sucedido em sua misso?
	Oh, sim, graas a Jane!
Ele teria ligado antes para avisar de sua chegada, mas mal tivera tempo, pois estivera preocupado em tomar o primeiro avio de volta ao lar. Lar... Agora aquela palavra tinha um significado para Richard.
Hope se aproximou.
Richard...  Sua voz estava mais sensual.
Ele preferiu se afastar, para no fazer algo do qual se arrependeria mais tarde. Subiu a escada com pressa.
	Vou tomar um banho, estou cansado  ele disse.  No espere por mim para o jantar.
No havia dvida de que Richard estava fugindo, o que a deixou bastante transtornada. Se ele desejasse, prepararia seu banho e um jantar especial, mas preferiu recuar. Manteria sua postura, nem que aquilo lhe custasse frustrao aps frustrao.
Decidiu fazer a refeio sozinha quando um barulho chamou-lhe a ateno. Correu a seu encontro e assustou-se com o que estava diante de seus olhos.
Richard, o que aconteceu?!

CAPITULO VI

Curvado, as mos nos joelhos, Richard estava plido e com a respirao ofegante. Quando Hope pousou a mo sobre o ombro dele, sentiu os dedos queimarem. Assustada, envolveu-o pela cintura.
	Richard! Voc est plido, deixe-me ajud-lo.
	Tudo bem  respondeu com dificuldade.
A passos lentos, chegaram ao sof, onde ele logo se deitou. Ajoelhada a seu lado, Hope tocou a testa quente, como sempre fazia com Chris. Ele ardia em febre.
	O que est fazendo?  perguntou Richard, enquanto ela tirava seu pulso.
	Tive treinamento de primeiros socorros. Por favor, fique quieto.  Os batimentos cardacos estavam acelerados.  O que est acontecendo, Richard?
Ele deu de ombros, parecendo arrependido por t-la a seu lado.
Sinto-me um pouco cansado,  s isso.
	Sua garganta est doendo?
Fitou-a, abismado.
	Como sabe?
	Sua voz est rouca  respondeu, com firmeza.  Um momento, vou pegar o termmetro.
	No  necessrio!
	No seja teimoso, precisamos saber o que voc tem.
Richard no discutiu. No sabia se porque no tinha foras
ou porque de nada adiantaria det-la. Na realidade, se sentia debilitado.
Sem mais demora, Hope foi at o armrio onde guardava seus remdios. Delicadamente, introduziu o termmetro na boca de Richard, e seus dedos tocaram de leve os lbios masculinos, o que a fez recuar.
	Vou fazer um pouco de ch enquanto medimos sua temperatura  disse, um pouco tmida.  Se a febre estiver alta como suspeito, ter de ingerir muito lquido.
	Mas eu odeio ch  ele resmungou como uma criana.
	Sinto muito, mas no h nada melhor para deix-lo hidratado, sobretudo se for um ch de ervas. Assim, seu estmago agradecer.
	Como sabe que meu estmago est ruim?
	Porque no suporta nem ao menos olhar para a comida, o que  incomum em se tratando de voc  respondeu com um leve sorriso nos lbios.  Agora, fique quieto at eu voltar.
Hope sabia que lidar com um adulto doente era pior do que com uma criana, que poderia ser comandada sem grandes problemas, como Christopher.
Com uma xcara na mo, retornou da cozinha em poucos minutos. Colocou a bebida sobre a mesa lateral e foi logo pegando o termmetro. Seus olhos se arregalaram ao ver a temperatura: quarenta graus.
Temendo pelo pior, Richard tomou o objeto das mos dela.
	No pode ser!  admirou-se.
	E por que no? Deve ter contrado algum vrus. Se a febre no ceder at amanh, chamaremos um mdico.
	No preciso de um mdico!
	Bem, ento ter de colaborar.
	O que quer dizer com isso?
	Quero dizer que deve fazer o que eu mandar.
	Ora, no exagere!  ele ponderou.  Uma boa noite de sono resolver meu problema.
Para provar o que dizia, sentou-se no sof. Mas a dor no corpo era muito forte, e ele no resistiu por muito tempo: voltou a se deitar, colocando as mos na cabea.
	Agora entende o que quero dizer, Richard? Sem dvida, dormir lhe far muito bem, mas ter de beber muito lquido, e talvez at um banho frio o deixe mais relaxado.
Ele a fitou de soslaio, como se desaprovasse a sugesto.
	Bem, deixe-me ajud-lo a subir a escada  ela se prontificou, solcita.
	Tudo bem  respondeu, sem replicar.
Hope observou um pequeno progresso naquele gesto. Mas Richard no tinha mesmo como recusar a ajuda, pois, ao se levantar, tudo pareceu girar a seu redor. Notando sua dificuldade, Hope no hesitou em envolv-lo pela cintura, suportando todo o peso daquele corpo.
Em outras circunstncias, aquela proximidade poderia causar certo constrangimento, mas naquele momento sua ateno estava concentrada em aliviar sua dor.
Podemos subir?  ela perguntou.
Sim.
Degrau aps degrau, chegaram ao piso superior, quando ele se apoiou na parede para descansar.
Voc est bem?  indagou Hope.
Recuperando o flego, Richard respondeu afirmativamente com um gesto de cabea.
A pausa tambm havia sido providencial para ela, pois seu corpo frgil sofria um pouco por ampar-lo.
Ao chegarem ao quarto, Richard nada fez alm de se jogar na cama, o que de certa forma a deixou aliviada.
	Voc tem algum pijama?  Hope perguntou ao notar que ele tremia e transpirava muito.
	No...
Revirando os armrios, Hope achou uma camiseta e um short.
	Estou bem  ele insistiu.
	No pode dormir com essa roupa molhada, caso contrrio poder pegar uma pneumonia.
	Hope, no sou uma criana  protestou, enquanto se despia.  D-me as roupas.
	Vou buscar o ch.  Entregou-lhe as peas e saiu do quarto, a fim de deix-lo mais  vontade.
Em poucos instantes ela trazia a xcara com o ch e um copo de suco equilibrados em uma bandeja.
Deitado sob os cobertores, Richard descansava com os olhos cerrados.
Ao observ-lo em posio to confortvel, Hope ,sentm pena por ter de incomod-lo, mas o remdio e os lquidos eram necessrios para sua reabilitao.
	Richard, acorde.  Tocou-o no ombro.
	Hope...  resmungou sonolento, com os olhos parcialmente abertos.
	Vamos, tome o medicamento
	Mas eu mal consigo falar...
	No seja teimoso, faa um pequeno esforo.
	Oh, Hope!
	Se gastasse menos tempo discutindo comigo, j estaria dormindo agora.
Nunca imaginei que pudesse ser.to autoritria.
Hope levantou a sobrancelha, indignada.
	O que vai tomar primeiro: suco ou ch?  perguntou, que rendo dar por encerrada a discusso.
Com as mos trmulas, Richard alcanou o copo de suco.
	Ainda est com frio?  ela perguntou.
	Sim, os cobertores no esto ajudando.
	Ento, o melhor ser um banho.
	Oh, no! Vamos esperar o efeito da aspirina.
Hope balanou a cabea em um gesto de reprovao, mas no tentou for-lo.
Depois de beber todo o lquido, ele voltou a se deitar, demonstrando sua fraqueza.
Olhando ao redor, Hope viu uma enorme lareira.
"Isso  bom, assim manter o quarto aquecido", pensou.
Ela sabia que no dormitrio ao lado havia grande quantidade de lenha, e foi busc-la. Faria qualquer sacrifcio para manter o conforto do marido. Na realidade, sua vontade era aquec-lo com o prprio corpo, mas com certeza sua ideia seria rejeitada.
Ao voltar ao quarto com a madeira nos braos, foi observada por Richard, que acabara de abrir os olhos.
	Isto dever mant-lo aquecido por um bom tempo  disse, colocando a lenha sobre o assoalho.  Se mesmo assim no adiantar, pegarei mais cobertas.
	No havia necessidade de tanto esforo  retrucou o doente.
	No fao nada alm de minha obrigao, Richard, afinal somos casados  ela disse, amigvel.  Agora, tome o ch antes que esfrie.  Apontou para a xcara antes de deixar o quarto.
Desceu a escada  procura do livro que comeara a ler em uma noite de insnia. Foi at a cama de Christopher para se certificar de que ele dormia tranquilamente. Ao chegar ao quarto de Richard, este dormia, envolvido pelo calor que vinha do fogo.
Acomodada na cadeira de balano que estava perto da lareira, preparou-se para comear sua longa viglia noturna.
Cansada, chegou a cochilar por instantes, mas logo despertou quando Richard tossiu. Em uma reao instintiva, foi a seu encontro e colocou as costas da mo na testa dele. Ainda estava febril, mas, pela sua experincia, sabia que a temperatura agora era mais baixa. Retornou a seu lugar, aliviada a ponto de dormir e ter sonhos.
Algumas horas se passaram at que Hope abriu os olhos novamente. Aproveitou o repouso do marido para se ausentar do quarto e buscar mais suco e outra aspirina. De volta, foi at o armrio e pegou nova muda de roupa.
Como se notasse movimentos no quarto, Richard despertou vagarosamente e da mesma forma ingeriu o remdio com um pouco do lquido, sem pronunciar uma palavra sequer. Era um bom sinal; afinal, no havia resistncia em seus gestos, mas outra barreira deveria ser rompida.
	Obrigado  ele agradeceu, devolvendo o copo.
	Sua roupa est molhada de suor, Richard. Deve se trocar outra vez.
	No  preciso, j estou muito melhor  protestou em um fio de voz.
A luz fraca que emanava do fogo da lareira permitia-lhe observar o olhar cansado de Richard, o que contradizia suas palavras. Tentou apoiar-se nos cotovelos a fim de erguer o tronco e se sentar na cama. Apesar de bem-sucedido, o esforo era indiscutvel.
Hope no esperou seu consentimento e tomou a iniciativa de tirar com delicadeza a camiseta dele.
Os movimentos lentos propiciaram a seus dedos roar de leve a pele quente e macia do corpo msculo. Sua vontade era recostar a cabea naquele trax musculoso, que sempre a atrara, mas teve de ceder  tentao e colocar a roupa limpa.
	Obrigado, novamente.  Ele assentiu com a cabea.  Eu troco o short.  Richard se adiantou, antes que ela pudesse refutar.
Mas suas foras se esgotaram quando, ao tirar a pea de roupa, os braos caram ao lado do corpo, demonstrando cansao.
	Deixe-me ajud-lo. Pode ficar tranquilo porque h pouca luz, e mal posso v-lo.
Apesar da fraqueza, ele ainda pde lanar um olhar de reprovao em direo a ela.
	S queria poup-la do trabalho, mas, se no se incomoda, v em frente.
Tirar a pea de roupa sob as cobertas at que foi tarefa fcil, mas colocar o short limpo era outra histria. Sem se preocupar com supostos constrangimentos, Hope afastou os cobertores e comeou a vesti-lo.
Dissimulada, Hope tentou no demonstrar a admirao que sentia sempre que via aquele corpo nu. As pernas rijas como ao sempre a atraram e acendiam a chama do prazer quando as tocava. Respirando profundamente, balanou a cabea como se quisesse afastar tais pensamentos.
Em um gesto inesperado, Richard segurou a mo dela.
	 melhor voltar para seu quarto  ele disse.  No quero que minha temperatura suba sempre que sentir sua respirao perto de mim.
Hope sorriu, sem poder ignorar a sensual observao.
	Deite onde o lenol est seco e volte a descansar  sugeriu ela.  Medirei sua temperatura de novo e, assim que estiver bem, voltarei para meu quarto.  Levantou-se da cama e ajeitou os cobertores.  A no ser que no queira minha companhia...
Mas ambos sabiam que no era esse o caso.
	Vai acabar com torcicolo, dormindo naquela cadeira, Hope.
	Ora, no se preocupe. Quem precisa de cuidados agora  voc.
	Hope...
	Quietinho.  Colocou o dedo sobre os lbios dele.  Nem mais uma palavra. Tome o restante da gua e durma.
Sem argumentar, Richard obedeceu e em pouco tempo seus olhos se fecharam.
Ao retornar com mais bebida, Hope notou que o fogo da lareira se esvaa. Colocou o copo sobre a mesa de canto e pegou lenha para reavivar a chama. Foi quando percebeu que Richard gemia baixinho e emitia sons inaudveis. Mas sua preocupao aumentou quando a voz se tornou mais forte e palavras eram pronunciadas em bom som. Parecia delirar.
	No, Davie, no!  ele clamava.  Meu Deus, no...  Richard revirava-se na cama.
Sem saber como agir, ela deixou a acha de lenha e se dirigiu at a cama. Segurou-o pelos ombros, no que foi imediatamente repelida. Nervosa, tentou massagear as costas dele, e com grata surpresa percebeu que Richard se acalmava. Aos poucos, os movimentos foram se tornando mais lentos at cessarem. Os cabelos molhados caam sobre as faces. Carinhosa, Hope afastou os cabelos dos olhos de Richard e beijou-lhe o rosto. Ao notar que o semblante se tornava mais sereno, ela se sentiu segura para retornar  cadeira de balano.
Os primeiros raios de sol atravessavam a fina cortina da janela quando Hope abriu os olhos e deparou com Richard sentado na cama.
	Vai a algum lugar?  ela perguntou, ainda sonolenta.
	Quero ir ao banheiro. Parece que a febre cedeu. Pelo menos, o quarto no est mais girando  brincou, com um leve sorriso nos lbios.
Aproximando-se, Hope colocou a mo sobre a testa do doente.
	Acho que tem razo  concluiu.  Mas vou medir sua temperatura mesmo assim.
	Antes, me ajude a ficar de p, pois preciso mesmo ir ao banheiro.
Pela primeira vez, Richard pedira sua ajuda sem pudor. Solcita, ela levou-o e o trouxe de volta para a cama.
Com boa vontade e dedicao, repetiu os mesmos cuidados mais uma vez: mediu a temperatura e entregou-lhe uma aspirina e um copo de gua.
	Agora pode voltar para seu quarto, Hope  ele pediu, depois de ingerir o remdio.
	Se prometer me chamar sempre que precisar, ficarei mais tranquila.
Ele assentiu com um gesto de cabea. Hope preferiu concordar, pois compreendeu que s assim Richard poderia descansar direito.
Esticando os lenis e as cobertas sobre a cama, deixou o quarto e a porta entreaberta, para o caso de ouvir qualquer chamado.
Ao se deitar, Hope imaginou como ele se sentia, pois era a primeira vez que se mostrava to vulnervel e frgil. Mas nada a impediria de ajud-lo. Amava-o e faria qualquer coisa para v-lo bem.
Ao acordar, Richard ainda sentia dor de cabea, mas j no era to intensa quanto na noite anterior. Lembrou-se do olhar de preocupao de Hope ao v-lo com uma febre to alta. Ele mesmo se surpreendera com seu estado debilitado.
Aos poucos, as lembranas tomavam conta de sua mente. O pesadelo, o carinho com que Hope o tratou ao massage-lo e beij-lo no rosto. Teria sido um sonho? No, no poderia ter sido, pois a sensao de alvio que ela lhe transmitira no podia ser comparado a nada, e era muito real. Mesmo enfermo, seus olhos a observavam sensualmente sentada na cadeira de balano. Seus instintos masculinos foram despertados pela presena da esposa, mas seu corao questionava o motivo de tamanha dedicao. Teria feito tudo guiada pelo corao ou apenas por convenincia? Sua volta estaria associada  vontade de facilitar a prpria vida? E por que no se dedicara a Richard quatro anos antes, quando estava grvida do pequeno Chris? Se o amasse realmente, no hesitaria em dividir com ele a alegria de se educar uma criana.
No poderia se deixar envolver por aquela ajuda que lhe parecia interesseira. Deveria erguer novamente as barreiras que por pouco ela no derrubara. Odiava sentir-se fraco e indefeso, nem a febre poderia deix-lo to exposto!
Seus pensamentos foram interrompidos quando a porta se abriu e foi atravessada por Chris e Hope, que trazia uma bandeja nas mos.
	Ele queria ver com os prprios olhos que seu pai est bem  disse, com um sorriso nos lbios.
Richard no pde conter a alegria de ver o filho.
	J estou bem melhor, Chris  ele afirmou.  Mas  bom que no se aproxime muito, caso contrrio poder ficar gripado.
Os olhos castanhos do pequeno se arregalaram.
	Mame disse que o dia de Ao de Graas est chegando. Ficar bem at l?
	Assim espero, meu amor  Richard respondeu, querendo transmitir tranquilidade.
	Agora, v para seu quarto brincar um pouco, enquanto cuido de seu pai  Hope pediu ao filho.
	Sim, mame.  E saiu sem replicar.
	Ele  um bom menino  observou Richard.
	Digamos que  um paciente mais obediente que voc.  Hope estendeu-lhe o termmetro.  Trouxe ovos mexidos e caf, se quiser comer mais tarde.
Sim, seu apetite era voraz, o que demonstrava sua visvel melhora.
	Obrigado, estou mesmo esfomeado  admitiu.  E, como a febre j cedeu, vou ao escritrio fazer algumas ligaes.
	Richard Walker, no se atreva a sair deste quarto. E, se no me obedecer, serei forada a chamar Adam.
Richard no se conteve e riu.
	E o que ele vai fazer?
	Amarr-lo  cama, se for preciso. Richard, no pode comprometer sua sade por causa da teimosia. Alm disso, Jane vir para tomar conta do escritrio.
	Voc no tinha o direito de...
	...de pedir ajuda porque est doente? Ora, no preciso de permisso para fazer isso. Uma secretria teria feito a mesma coisa.
E ele no poderia tirar-lhe a razo, no havia motivo aparente para implicar com sua iniciativa. A no ser o fato de sentir-se invadido por aquela ajuda que o fazia se sentir impotente.
Est bem, voc venceu.
Ela sorriu, vitoriosa.
	Isso quer dizer que no preciso ligar para Adam?
	Quer dizer que sou grato por tudo o que fez por mim na noite passada.
Mesmo vestindo um jeans e uma simples camiseta branca, Hope estava muito atraente, e aproximar-se dele tornou-se um risco muito grande.
Lembra-se de que teve um pesadelo?
A pergunta afastou os pensamentos que tomavam conta de sua mente.
	Sim, e devo dizer que ele  recorrente  ele respondeu.  Sempre me vem  memria o carro pegando fogo, Mary Beth gritando...
	Talvez conversar sobre o assunto o ajude  ela sugeriu, mesmo sabendo que seria muito difcil aquilo acontecer. Richard nunca se abrira com Adam ou Jane, por que se abriria com ela?
	No h nada para falar  afirmou, decidido.  Davie morreu, e a culpa foi minha.
	Richard, no pode continuar acreditando nisso.
	O explosivo estava em meu carro, era para mim. Foi minha culpa. Se fosse com Christopher voc tambm me culparia.
Ela se sentou na cama e segurou as mos dele.
	Como pode assumir toda a culpa? Decerto sofreu e sofre tanto quanto Mary Beth  ela ponderou.  Afinal de contas, amaram seu filho na mesma intensidade. Tem de se conscientizar de que no pode se responsabilizar inteiramente pelo mal que os acometeu, caso contrrio nunca alcanar a paz.
As palavras de Hope faziam sentido, mas encarar aquilo como verdadeiro era muito difcil. As mos que seguravam as suas lhe traziam conforto, o que, de certa forma, o incomodava. No queria se sentir dependente do carinho dela. E se Hope resolvesse abandon-lo outra vez?
A proximidade fez com que ele sentisse um forte desejo de abra-la e beijar os lbios delicados, mas a cabea latejava de dor, fazendo-o desistir de qualquer coisa.
Richard achou por bem pegar a bandeja e se servir.
	Se tiver algo para fazer, pode me deixar aqui. No me esquecerei de tomar a outra aspirina.  Ele nem ao menos ergueu a cabea para encar-la e sabia que com isso estava sendo grosseiro.
Tanto melhor, aquela era sua inteno.
Hope se levantou, aborrecida.
Se precisar de algo,  s me chamar.
A vontade dele era cham-la e tom-la nos braos, mas no sabia se aquela seria a atitude correta, ento, decidiu por ficar em silncio e deix-la se retirar.
O dia seguinte transcorreu tranquilo. Richard sentiu-se um pouco cansado por trabalhar sem interrupo em seu escritrio, mas estava visivelmente recuperado.
Aps o jantar, ficaram os dois ocupados em entreter o filho com um novo brinquedo. Richard a observava, sorrateiro, enquanto divertia o filho. Parecia haver algum problema incomodando Hope. Quando o brinquedo caiu ao cho por descuido, o pequeno deu uma sonora gargalhada.
	Pai, monte de novo  ele pediu.
	No senhor, mocinho  interferiu Hope, olhando para o relgio.  J  hora de ir para a cama.
	Est bem, me. Mas pode antes ler uma histria para mim, papai?  ele perguntou, olhando para Richard e depois para Hope.
O pedido era uma clara demonstrao de que o menino sentira sua ausncia durante aqueles dias.
	 claro  respondeu o pai, solcito.  Mas antes vamos guardar os brinquedos, certo?
Aquele era o momento do dia mais esperado por Hope, pois era quando se sentia mais prxima do filho.
Caminharam os trs para o quarto. A viso de Richard aconchegando o filho nos braos chegou a comov-la.
Quando Christopher adormeceu, o pai o colocou na cama, e ambos desceram a escada calados.
Hope se sentou no sof, enquanto Richard se colocou perto da lareira, a observar o crepitar da madeira. Em seguida, virou-se para ela, com um olhar to ardente quanto o fogo que queimava atrs dele.
	Pensei na hiptese de seu retorno aos estudos  ele comeou.  Como pretende custe-los?
	Bem, ainda no tive tempo para refletir, mas no gostaria de dispor do que conseguirei com a venda do terreno, pois pretendia guard-lo para Chris, apesar de no ser muito.
	Quanto a isso, no h por que se preocupar. Afinal, estarei aqui para ajud-lo no que precisar.
	Eu sei, mas a responsabilidade  minha tambm.
	Hope, casamos em comunho de bens, esqueceu?
	No entendo aonde quer chegar  disse, lanando-lhe um olhar de dvida.
	Quero dizer que tudo o que  meu  seu, e vice-versa.
No quero que se arrependa no futuro, Richard  ela disse, amigvel.  Se ficar muito oneroso custear meus estudos, posso voltar a trabalhar no berrio. Apenas deixei de faz-lo porque voc achou mais conveniente que eu ficasse em casa para cuidar de Christopher.
Richard balanou a cabea.
	No me arrependerei se tiver a certeza de que lutamos pelo mesmo ideal.
Passava pela cabea dele que seus objetivos poderiam ser diferentes? Hope no pde deixar de se sentir ofendida.
Ainda acha que me casei por puro comodismo?
Ele deu alguns passos em sua direo, o que lhe permitiu sentir o perfume msculo com mais intensidade e a tenso que dominava o corpo viril.
	S acho que se cansou de trabalhar e ter de cuidar de Christopher sozinha. Casar-se comigo seria uma forma de solucionar seus problemas, digamos assim.
Hope sentiu o calar subir s faces. Estava cansada daquelas suspeitas infundadas.
	Como se atreve a afirmar uma coisa dessas?  perguntou, desiludida.  Posso lhe assegurar que meus problemas no me causam mais desgosto do que saber que no confia em mim. Talvez nesse Natal no fosse o caso de pedir um corao para substituir a pedra que se alojou em seu peito?
Ela no podia imaginar que aquelas palavras o tocariam to profundamente. J prximos, bastou um simples gesto com o brao para t-la junto ao peito.
	Meu corao no  de pedra, se  isso o que quer dizer  falou, com os lbios quase se encostando.  Alis, nada no meu corpo  de pedra ou insensvel.  E provou suas palavras ao beij-la com avidez e abra-la como se quisesse fazer dos dois corpos apenas um.
O que Hope sentiu em seguida foi a chama do desejo tomar conta de seu corpo de imediato, como o fogo que queima a folha seca de outono. O beijo ardente era um convite para que correspondesse  altura. Mas e se se arrependesse depois?

CAPITULO VII

Sem esperar por qualquer resposta, Richard invadia de forma insacivel a boca de Hope, explorando com a lngua sua intimidade. J fazia muito tempo que ela esperava por aquele momento, para sentir o calor do desejo e a volpia incontrolveis dele. Sem poder raciocinar, seus instintos lhe diziam para beij-lo na mesma intensidade.
Em um abrao apertado, a respirao ofegante era sentida por ambos, e os seios intumescidos roando junto ao peito rijo deixavam-no ainda mais excitado.
Pouco depois, Richard se afastou alguns centmetros, o que de certa forma a desapontou, pois no queria interromper aquele momento mgico. Mas para seu deleite aquela tambm no era a inteno dele. Muito pelo contrrio, Richard queria observ-la por instantes e deslizar sua mo mscula por sob a blusa de seda, a fim de livr-la do suti. Com agilidade, mas delicadamente, em poucos segundos no havia nada entre seus dedos e os mamilos rseos, que tanto o enlouqueciam.
Com as pernas trmulas, Hope no conseguia mais resistir aos apelos dele, e se deitaram no cho.
Sem dar trgua s carcias, Richard cobria a pele dela de beijos, e as mos hbeis deixavam-na louco de desejo.
Agora era a vez de ela ceder s vontades do destino e desabotoar a camisa de algodo. Ao chegar ao ltimo boto, Hope sentiu o zper da cala jeans e no se intimidou, abrindo-o com vagar. O trax rijo como ao era o estmulo que lhe faltava para dar vazo a seus instintos.
 Richard, te quero tanto!  murmurou, entre os dentes.  No sabe o quanto esperei por este momento...
Como um selvagem, ele se atirou sobre Hope, querendo arrancar-lhe a cala para t?la inteira diante de si, sem nada que lhe cobrisse o corpo.
Mas um raio de luz caiu sobre sua cabea, fazendo-o recuar. Fitou-a profundamente.
	O que aconteceu?  ela perguntou, ansiosa.
	No estamos agindo direito  respondeu, srio.
	Mas, meu amor, somos casados!
Afastando-se, Richard pde demonstrar sua preocupao.
	No, Hope, isso no  o suficiente  afirmou.  Se formos adiante nesta loucura, poderemos nos arrepender amargamente.
	Parece ter tanta convico em suas palavras...  ela deixou escapar.
	Escute... quero ter certeza do que sente por mim  Richard admitiu.  No podemos nos entregar quando ainda penso que me contou sobre Christopher apenas para ter algum com quem dividir as responsabilidades. No quero que simule um sentimento por mim que no sente.
Na verdade, Richard sentia-se to vulnervel quanto ela, sua confiana estava abalada e precisaria mais do que sua entrega para reconquist-lo. Mas Hope tambm estava insegura.
	E voc, Richard?  ela interveio, em tom rancoroso , como saberei o que sente por mim, se no deixa o corao aberto?
	Bem, estou falando agora.
	Pois no estou entendendo...
Por um momento, ela pensou que no obteria resposta. Mas a reao de Richard deixou-a pasmada.
	Desejo voc, Hope, inteira  disse, passando os dedos pelos cabelos revoltos.  Meu corpo e minha mente no conseguem se esquecer de tudo o que vivemos juntos, dos momentos maravilhosos que compartilhamos.  Seu olhar agora era srio.  Mas no quero me desiludir novamente, no serei ingnuo dessa vez. Quero que nossa entrega seja mtua e por completo, assim no haver falhas.  Havia um qu de rancor naquelas palavras.
	No sei como consegue ser to racional em um momento como este. Eu te amo, como sempre amei.  Hope no acreditava que depois de anos fosse obrigada a provar seus sentimentos.
	Se me amasse, no teria me deixado. Da mesma forma como voc fez, meus pais tambm me abandonaram, mesmo afirmando que me amavam.
Ento, seu rancor vinha de outras experincias frustradas que ele vivenciara, ela concluiu.
	Talvez tenha de me mostrar que tipo de amor  esse que diz sentir por mim, que me fez sofrer tanto no passado. Amor para mim, Hope,  ficar junto, acontea o que acontecer.
	Prometi ficar a seu lado quando nos casamos.
Ele fez um gesto negativo com a cabea.
	Promessas podem ser quebradas, sabe muito bem  respondeu.  Atitudes valem muito mais do que palavras. E s o tempo poder me fazer confiar em voc de novo.
.Os olhos de Hope se encheram de lgrimas, pois seu amor era verdadeiro, como sempre havia sido. Mas ao mesmo tempo sentiu uma ponta de esperana naquelas amargas palavras. Ele estava sendo honesto abrindo seu corao como nunca fizera antes. Uma chama de alento surgiu e, quem sabe, ainda poderiam ter um casamento feliz. Faria de tudo para provar a veracidade de seus sentimentos.
Sem mais palavras, ambos se recompuseram. Um clima funesto se interps entre os dois.
	Richard...  Ela queria a todo custo romper o silncio ensurdecedor que os envolvia.  Pretende fazer algo no dia de Ao de Graas?
Compreendendo a situao, ele no se ops em .responder de forma solcita:
	No pensei no assunto ainda. Tem algo em mente?
	Gostaria de convidar minha tia para jantar conosco  Hope disse.  Que tal se convidasse Adam e Jane tambm?
	A me vir passar as frias com ele.
	Bem, ento poderamos receber todos aqui!  exclamou, animada.
	Tem certeza de que quer cozinhar para tantas pessoas?
	A data  importante. E ser uma tima oportunidade de reunir os amigos.
	Por mim, tudo bem  ele concordou.  Quer que ligue para eles?
	Oh, posso me incumbir da tarefa!  disse, entusiasmada.  E quem sabe, na prxima semana, poderemos comprar os presentes Natal para Christopher.
	Sim,  uma boa ideia.
timo, ele no a estava ignorando, como temia que fosse acontecer, o que a deixou mais confiante.
	Richard...  Os olhos dela brilhavam.  No darei motivos para que desconfie de mim. Nunca mais.
Para sua surpresa, os olhos dele tambm reluziam, transmitindo carinho e desejo.
	Teremos um grande jantar no dia de Ao de Graas e iremos s compras de Natal juntos, se  assim que deseja.  Um leve sorriso deixou-o menos srio.  Mas no vamos nos precipitar, ambos sabemos que nada muda da noite para o dia.
Hope no era ingnua, mas a simples ideia de compartilhar com ele momentos to importantes enchia-a de esperanas.
	No se preocupe, Richard, acredito na magia do Natal  respondeu, sorrindo tambm.
Andando entre as prateleiras da loja de brinquedos, Hope era a pura viso da alegria. E Richard estava contente por isso. Haviam tido um jantar de Ao de Graas inesquecvel. Hope tornara a noite um evento sem igual, contagiando a todos com sua simpatia e servindo pratos deliciosos.
Richard estava grato por poder compartilhar daquela felicidade. Principalmente agora que sabia ser pai de Christopher. No incio, fora difcil o relacionamento, mas a afinidade foi tamanha que tudo se passava como se nunca tivessem se separado. Sim, havia muito no experimentava tal sensao de jbilo. Como poderia retribuir-lhe tal contentamento?
Em conversa paralela com Eloise durante o jantar, ambos reconheceram que seria muito difcil para Hope superar a falta da me naquelas datas festivas, uma vez que se amavam muito mais do que me e filha. Foi ento que lhe veio uma ideia: oferecer uma festa surpresa para a esposa. E tinha certeza de que Christopher aprovaria a sugesto.
A voz de Hope a cham-lo fez com que voltasse  realidade.
	O que acha deste carro com controle remoto?  perguntou com um exemplar na mo.
	 bonito e parece interessante, Hope. Deixe-me v-lo melhor.
E colocando-o no cho, ps-se a test-lo, sem tomar o cuidado de desvi-lo dos ps dela.
	Que acha de comprarmos dois?  Hope riu da pouca habilidade dele.  Assim, podero os dois brincar juntos.
	 uma boa ideia!  E soltou um riso cativante que a fez suspirar.
Ao final das compras, pareciam ter comprado a loja inteira.
	Espero no ter exagerado  ele observou.
	Oh, Richard, Chris vai adorar!
	Gostaria de fazer um pedido para o Papai Noel tambm.  Seus olhares se encontraram diante das palavras dele.
	No vai me dizer que tambm quer um carro?
	Oh, no!  exclamou, sorridente.  Pensei em algo mais simples, assim como um Natal  moda antiga.
	Sabe que estive pensando nisso tambm?
Mas Richard no parecia ouvir o que ela dizia, pois se aproximava de forma ameaadora, fazendo uma onda de calor tomar conta dela.
	Voc fez de ontem uma noite muito especial  ele murmurou, a centmetros de distncia.  Gostaria de agradecer-lhe por isso.
	Agradecimentos so desnecessrios  ela argumentou, sentindo-se sufocar dentro da prpria jaqueta de couro.
	Foi elogiada por todos merecidamente, devo acrescentar. Inclusive pela me de Adam, que no a conhece.
	Ora, ela quis ser apenas gentil.  Hope sentia o hlito dele penetrar em suas narinas.
	No seja modesta!  falou sorrindo com os olhos.
Hope no suportava mais aquela proximidade. Precisava fazer qualquer coisa para afast-lo, caso contrrio, no saberia mais como agir.
	Fico feliz que pense assim.  Afastou-se alguns passos, a fim de poder respirar.  Tia Eloise e a me de Adam se deram muito bem, e j at marcaram outro encontro para a prxima semana. Percebeu como Christopher se divertiu com Matheus?
Os olhos de Richard se estreitaram e ele se afastou.
	Quis dizer que ele gosta de ficar na companhia de outras crianas.
Richard andou mais um pouco com as compras na mo.
	Quando estavam em Wasco, ele ficava sempre a seu lado?
	Sim  ela respondeu.  Trabalhar em um berrio tem essa vantagem. Chris ficava com as assistentes que tomavam conta dele, enquanto eu trabalhava, tranquila.
	E agora acha que ele sente a falta de ter com quem brincar?  Havia preocupao em seu tom de voz.  No se esquea de que algumas crianas so maldosas por natureza.
Hope lanou-lhe um sorriso amigvel. V-lo assumindo as dores do filho a deixava extasiada.
	Ora, Richard, Chris tem apenas trs anos. E nessa idade a companhia de outras crianas  fundamental para sua sociabilidade. Compartilhar, perder e ganhar fazem parte de seu crescimento.
Richard relaxou; afinal, ela no deixava de ter razo.
	Voc sempre pensa no que  melhor para ele, no ?
	Digamos que tento preserv-lo.
Hope falou com tanta segurana e propriedade que no havia como argumentar.
Caminhavam pelos corredores da loja, quando Richard observou:
	Esqueci-me de falar, mas encontramos o amor de adolescncia de Harv.
	Que timo!  exclamou, exultante.  Como conseguiu?
	Os arquivos do Estado nos guiaram at ela. Tivemos a informao de que Bernardette comprou uma pequena casa no interior, assim que o marido morreu. Permaneceu l sem manter contato com quem quer que fosse. Harv foi a seu encontro ontem, e hoje pela manh ligou-me dizendo que j estavam retornando.
	O que acha que acontecer?
	E muito difcil afirmar qualquer coisa. Os anos podem t-los feito mudar muito, inclusive o sentimento mtuo.
	Ou no...  ela conjecturou.
Richard sabia que com aquela observao Hope estava querendo se referir ao caso deles. Queria convenc-lo de que nada havia mudado entre eles com o passar dos anos.
A manh de domingo comeou animada, com Christopher decorando a rvore de Natal.
	Posso colocar esse enfeite, mame?  perguntou, apontando para o pequeno cavalo de madeira guardado na caixa de papelo.
	Parece que esses enfeites so bem antigos  Richard observou, aproximando-se de Hope, a ponto de ela poder sentir o odor de seu perfume.
	S-sim...  gaguejou.  Eram de minha me  explicou entregando o objeto para o filho.  Tome, Chris, coloque onde quiser.
Revirando a caixa, Richard descobriu um delicado anjo de vidro e o entregou  esposa.
	Sua me tinha coisas belssimas  disse, tendo os movimentos detalhadamente observados por ela.
	Ela sempre gostou do Natal, por isso comprava tantos enfeites e adornos.  Lembrar-se da me dilacerava seu corao.
	Desculpe-me.  Richard notou a tristeza dela.  No tive a inteno de mago-la.
	Oh, no, no se preocupe. Preciso mesmo superar a ausncia dela.  Virando-se para o filho, falou:  Olhe, meu amor, o que seu pai achou no meio das coisas: nosso anjinho de Natal!
	Oba!  exclamou, entusiasmado.  Posso pendur-lo na porta de entrada?
	Por qu?  indagou o pai, franzindo o cenho.
	Assim os sinos tocaro quando o Papai Noel aparecer na porta de casa.
	Ento pegarei o martelo e um prego.  Ele riu com a ingenuidade e fantasia do menino.
Em poucos minutos o enfeite adornava a entrada principal.
	Pronto! Podemos aguardar o Papai Noel mais tranquilos  Richard comentou, orgulhoso com sua contribuio.
	Mame, voc me chama quando ele aparecer em casa?
	Mas, meu amor  Hope abaixou-se na frente do filho.  Basta ouvir os sinos e acreditar que ele nos visitou.
Ao terminar de falar, a campainha do forno soou.
	Oh, os biscoitos!  Saiu correndo em direo da cozinha.
	Vamos terminar nosso trabalho na sala, enquanto sua me se encarrega dos quitutes.  Richard pegou a mo do filho e o encaminhou para dentro de casa.
Depois de verificar que os biscoitos estavam prontos, Hope foi at a porta da sala e l permaneceu a observar, deliciada, a cena que envolvia o filho e o marido. Gostaria mesmo que ambos acreditassem na magia do Natal. Afinal, tinham o direito de sonhar e serem felizes. T-los juntos naquele momento lhe dava mais esperanas no futuro, quando Richard acreditaria em seus sentimentos. E ento, teriam um casamento de verdade.
Finalmente, o dia do aniversrio chegara. A geladeira repleta de refrigerantes, doces e salgados deixava claro que a festa seria inesquecvel.
	Papai, vamos pendurar os bales?  Era a dcima vez que Richard ouvia a mesma pergunta desde que contara a Chris que seria sua a responsabilidade da decorao.
	Est bem  respondeu, vencido.
Enquanto se ocupavam da tarefa a campainha da porta tocou. Era estranho, uma vez que Hope fora convencida a passear no shopping e o bolo s seria trazido mais tarde por Eloise.
Deixando as bolas de lado, foi verificar quem estava  porta. No caminho pde reparar como sua casa mudara desde a chegada de Hope, que transformara com sua alegria contagiante e seu filho maravilhoso aquela simples construo em um verdadeiro lar.
Ao abrir a porta deparou com um entregador que trazia nas mos um belo ramalhete de flores do campo.
	Encomenda para sra. Hope Walker.
Pegando o arranjo nas mos, no resistiu em ler o bilhete que o acompanhava.
Querida Hope, feliz aniversrio.
Com muito amor,
Mark.
Aquele nome no lhe era estranho. Lembrou-se de que era um antigo caso de Hope, mas no sabia que ainda mantinham contato. Como ele se atrevia a mandar flores para a casa dele? No sabia que estavam casados? E por que a tratava com tanta intimidade?
Quem sabe no tivera a oportunidade de lhe contar as novidades. Bem, se Eloise no lhe tivesse recordado sobre a data de aniversrio, ele no se lembraria, o que o tornaria um perfeito idiota diante dela, uma vez que um antigo namorado no havia se esquecido de data to importante. Leu mais uma vez o carto e desviou o olhar para o arranjo em suas mos. Hope merecia muito mais do que aquilo, era verdade. Rosas, orqudeas e tudo mais o que fosse possvel para alegrar sua vida. Richard foi at a sala e disse, entusiasmado:
	Venha, Chris, vamos dar uma sada.
	Para onde? No vamos terminar de pendurar os bales?
	Mais tarde. Vamos  floricultura comprar muitas flores para sua me. O que acha?
	Precisamos ir agora?
	Sim, caso contrrio, ela chegar e no ter a surpresa. Vamos dar a ela uma festa que jamais esquecer!  E tomou o filho nocolo para no demorar.
Aps estacionar o carro na garagem, Hope saiu com alguns pacotes nos braos.
	H muito tempo no saio para fazer compras  comentou.  Acho que por isso exagerei!
	Ora  adiantou-se Jane , um vestido e alguns acessrios no chega a ser um exagero. Alm do mais, o vestido parecia feito sob medida para voc, ficou deslumbrante!
Realmente, a bela pea de seda branca cara como uma luva no corpo escultural de Hope. Ela se lembrava, desde o vestido de casamento, no comprara nada to especial e bonito. Era bem verdade que no resistira  tentao de compr-lo por ser aquela uma data especial. Alis, apenas sua tia sabia de seu aniversrio. Nada contara a Richard, pois no queria que ele se sentisse na obrigao de comemorar a data com ela.
	Jane, o que acha de jantar conosco?  perguntou, como se quisesse inconscientemente que seu aniversrio fosse compartilhado com mais pessoas.  Ou Adam est  sua espera?
	Bem, Adam sempre est  minha espera, mas eu gostaria muito de jantar com vocs. Posso ligar para ele e avisar que chegarei mais tarde.
	Otimo!  exclamou, exultante.  No tenho nada de especial, mas posso preparar algo em pouco tempo.
	Eu no gostaria de perder a estreia do seu vestido novo  comentou a amiga.
	Oh, no! No vou us-lo hoje. Vou guard-lo para uma ocasio especial, para o Natal.
Alguns passos as levaram at a varanda e, ao girar a maaneta, Hope quase desmaiou. Vozes gritaram em unssono:
	Surpresa!
Christopher correu para seu encontro.
	Surpresa, mame! Feliz aniversrio!
Atnita, deixou cair os pacotes e abraou seu filho. A seu redor, Adam e Eloise seguravam buques que combinavam com as flores que adornavam o ambiente. Seus olhos brilhavam de felicidade, e no tardou para que lgrimas brotassem deles. Uma pesada mo pousou sobre seu ombro, enquanto ainda era abraada por Christopher. Ao virar a cabea, seu olhar cruzou o de Richard.
	Feliz aniversrio, Hope.
As palavras se recusavam a sair da garganta, que estava obstruda pela emoo.
Suavemente, Richard enxugou suas lgrimas.
	Diga algo, seno Christopher pensar que fizemos um pssimo trabalho.
	Vocs fizeram tudo?
	Digamos que recebemos um pouco de ajuda  ele confessou.  Espere at ver o bolo que sua tia fez.
	Oh, Richard, est tudo maravilhoso! As rosas so lindas!
Ele a tomou nos braos.
	Fico feliz por voc ter gostado da surpresa. ' O abrao demonstrava todo o carinho que sentia por ela.  Vamos para a sala, h muitos presentes para abrir!
Hope ainda no podia acreditar no que estava acontecendo. Ao acordar naquela manh, sua primeira reao fora se lembrar da ausncia de sua me no primeiro aniversrio depois de sua morte, o que a entristeceu sobremaneira. Na realidade, estranhara quando fora convidada por Jane para passear justo naquele dia, mas encarou o fato como simples coincidncia. E agora, estava nos braos de Richard, o melhor presente que poderia ganhar.
Guiada por ele, Hope sentou-se no cho, sendo rodeada pelos demais convidados.
	Este  o meu presente, mame!  Christopher lhe entregou um belo embrulho.
Ao abri-lo, um largo sorriso iluminou seu rosto.
	Oh, meu amor, que lindo!  Era uma das pedras da coleo dele.  Colocarei sobre a penteadeira da vov, assim poderei v-la sempre.
	Tem um papel tambm  ele avisou, apontando para uma folha dobrada.
Era o desenho de uma paisagem, colorido em cores bem vivas.
	 muito bonito! Vamos pendur-lo na parede, certo?  E o abraou, emocionada.
A cada presente aberto, Hope sorria de alegria. Ao receber da tia uma caixa cor-de-rosa, no pde conter as lgrimas.
	Obrigada, titia  disse, +e a abraou.
	Feliz aniversrio, minha querida  sussurrou Eloise em seu ouvido.  Espero que goste.
Era um conjunto de moletom, daqueles que ela adorava vestir nas horas de lazer.
	Pode ter certeza de que amei o seu presente, acertou em cheio.  E aproveitou para lhe dar mais um beijo.
	Ainda bem, pois prometi a sua me cuidar de voc muito bem.  E retribuiu o gesto de carinho.  Voc  a filha que no pude ter.
Hope voltou a se sentar no sof, no que foi acompanhada por Richard.
	E esta  minha pequena lembrana.
As mos tremiam e os olhos logo ficaram marejados ao ver o lindo porta-retrato com uma fotografia de Christopher brincando no jardim. Desviou o olhar para Richard e no se conteve ao beijar-lhe a face. Era um beijo carregado de amor, mas sobretudo de felicidade, que aumentou ainda mais quando ele correspondeu ao gesto beijando-a na frente de todos.
Os convidados aplaudiram a cena, deixando-os muito envergonhados. Richard estava visivelmente constrangido e sentiu o rosto enrubescer.
	Obrigada  Hope disse, enfim.  Adorei o que fizeram por mim.
	Foi papai que tirou minha foto  Christopher informou.
	Bem, pessoal, vamos nos servir, pois ningum  de ferro!  chamou Eloise, querendo que a sobrinha se recompusesse do momento to emotivo.
s gargalhadas, os convidados se dirigiram  mesa, onde puderam se fartar de salgados e doces.
Solcito, Richard ofereceu o brao a Hope para gui-la. Com um sorriso tmido nos lbios, ela no teve como resistir  gentileza. Logo atrs, estavam Christopher e o pequeno Matheus, que se divertiam com a companhia mtua.
A noite j chegava ao fim quando os ltimos convidados se retiraram. Apenas Eloise permaneceu na casa a fim de ajudar a sobrinha.
	Foi uma grande festa, no foi, tia?  comentou Hope, en quanto lavava os ltimos pratos.
	Sim, e a dedicao de Richard foi exemplar.
	E verdade  ela concordou.  Ele fez tudo sozinho?
	Bem, depois que soube da data, no quis aceitar ajuda alguma. Eu bem que me ofereci, mas ele apenas me delegou a responsabilidade de fazer o bolo.
Ento, ele no se lembrara de seu aniversrio. "No faz mal", ela pensou. Afinal, depois de todo o trabalho, s poderia acreditar que fizera tudo com a maior boa vontade.
Passos no corredor fizeram-na recuar nos pensamentos. Era Christopher, que corria, a boca suja de chocolate.
	Desculpe-me, Hope  disse Richard, logo atrs do menino.
 Mas permiti que ele se servisse de uma ltima fatia de bolo antes de se deitar.
	Ora, no h nada de mal nisso  Hope comentou, rindo da preocupao paterna.
Os olhares se encontraram e ela percebeu que o marido estava srio.
	Tenho algo para lhe mostrar.  E a pegou pela mo em direo ao escritrio.
O ramalhete de flores do campo jazia sobre a mesa.
	Richard, voc j comprou muitas flores para mim  ela comentou, ingenuamente.
	Mas essas no fui eu que comprei.
Hope franziu as sobrancelhas em um gesto de perplexidade.
	No?  E pegou o carto.
Richard acompanhava seus gestos sem perder, inclusive, o movimento dos olhos sobre o carto.
Fechando o envelope, ela desviou o olhar para Richard.
	No sei o que dizer.
	Sempre recebe flores em seu aniversrio?
	Sim... e s vezes em outras ocasies  respondeu, a voz quase inaudvel.
	Ele no sabe que estamos casados?
	Claro que sim!  exclamou, tentando se justificar.  Mandei-lhe uma carta. Afinal de contas, somos amigos, assim como voc e Jane.  Colocando o carto sobre a mesa, fitou-o profundamente.  Isso nada significa para mim, Richard.
Seus olhares se cruzaram, e qualquer palavra era dispensvel naquele momento.
A passos lentos, ele se aproximou e tocou os lbios delicados com a ponta do dedo. O gesto fez com que um tremor percorresse sua espinha e o corao palpitasse de desejo.
	Feliz aniversrio,-Hope.  Foram as ltimas palavras antes que os lbios se encontrassem em um beijo apaixonado. Enfim, poderia realizar seu sonho to esperado, ela pensou. Seu casamento seria, ento, a unio de duas pessoas que se amavam. Aquele beijo representava muito mais do que o desejo de se entregar a Richard. Estariam selando para sempre o futuro deles.
Pela porta entreaberta, Eloise observava a cena, extasiada. Estava  procura da sobrinha para lhe perguntar sobre o que fazer com o que restara da comida, mas desistira ao v-los envolvidos naquele clima. Ao deixar o lugar, um leve rangido da porta se fez ouvir, assustando Hope. O beijo interrompido deu lugar a um sorriso maroto.
	Temos de colocar Christopher na cama  ele comentou.  Antes que nos veja deitados.
	Sim...  Ela enrubesceu, no podendo ignorar suas intenes com aquelas palavras.  Richard, muito obrigada pelo dia de hoje.
	Queria que fosse o dia mais feliz de sua vida.
	Pode acreditar que foi  afirmou, com os olhos brilhando.
Mas Richard sabia que a falta da me no poderia ser substituda com uma grande festa, por mais deslumbrante que ela fosse. Porm, sabia tambm que ele se esforaria ao mximo para tentar faz-la feliz.
Hope saiu do escritrio, seguida por Richard,  procura do pequeno Christopher.

CAPITULO VIII

Quinze, dezesseis, dezessete...  Hope contava devagar para dar tempo ao filho de se esconder. Era mia diverso predileta, principalmente quando brincavam no andar superior e ele podia se esconder sob as camas ou atrs das portas.
Corriam de cmodo em cmodo, at que ela entrou no quarto de Richard. A cama bem arrumada e o quarto discreto faziam-na sonhar com a promissora noite que teriam em um futuro no muito distante, quando ento poderiam dar o casamento como consumado.
Ao final da festa de aniversrio, Hope pensou que Richard a convidaria para dividir a cama com ele, mas sua frustrao foi grande quando viu em seus olhos uma ponta de dvida. No poderiam, ento, dar continuidade ao beijo interrompido, pensou amargurada. Mas, mesmo assim, suas esperanas no se desfizeram, haviam progredido, e ela no desistiria. Seria paciente.
Uma voz desafinada tirou-a de seus pensamentos solitrios.
	Mame, venha me procurar!  gritou o menino, de seu esconderijo.
Hope j sabia onde ach-lo, mas prolongou a brincadeira o mais que pde.
	Aqui est voc!  E afastou as roupas penduradas no armrio que lhe servia de esconderijo.
	Oh, me, voc sempre me acha!  resmungou o pequeno.
	Bem, a casa no  to grande, afinal. E, alm disso,  hora de dormir.
Ao acompanh-lo at o banheiro, ela ouviu a campainha tocar e os passos de Richard se encaminhando at a porta.
Hope pde distinguir a voz de um homem e de uma mulher. Poderia ser Jane, que se esquecera de algum material de trabalho, talvez. Aps colocar o menino sob as cobertas e se certificar de que ele adormecera depois da histria contada, ela fechou a porta do quarto ao mesmo tempo que Richard a chamava.
	Hope, pode vir aqui um instante?
Ao descer a escada, deparou com Richard recebendo Harv e uma bela senhora.
	Boa noite, Hope  cumprimentou o senhor.  Quero apresentar-lhe Bernardette.
Ao lado de Richard, ela estendeu a mo.
	Muito prazer  respondeu, solcita, a mulher a sua frente.
Ela era alta, ruiva, com penetrantes olhos verdes.  Harv me disse que voc lhe assegurou que Richard me encontraria e como suas palavras o fizeram persistir.  Ela deu a Harv um sorriso.
Hope olhou para Richard. Ele franziu a testa e percebeu que ambos lembravam o sermo que Hope recebera de seu marido da ltima vez que Harv esteve l.
	Desculpe-me por t-la confundido com a parceira de Richard,  que nunca a conheci. Mas  melhor que seja esposa de Richard, tornar minha ideia rrfais brilhante.
Richard apontou para o sof.
	Que ideia  essa?  ele indagou, encaminhando-os para a sala de estar.
	Benie e eu vamos nos casar. J perdemos muito tempo e queremos realizar a cerimnia o mais rpido possvel. Pensamos que poderiam nos acompanhar a Los Angeles amanh pela manh.
Os olhares perplexos de Richard e Hope buscavam maiores explicaes.
	Sei que estamos perto do Natal  continuou Harv.  Mas gostaramos que fossem nossas testemunhas. Seria algo simples, apenas um jantar aps a cerimnia. Passariam a noite no hotel e retornariam na manh seguinte. O que me dizem?
Hope achou que a primeira reao de Richard seria rejeitar a ideia, mas ficou admirada quando ele voltou-se e a encarou.
	Tem algo de inadivel para fazer nas prximas quarenta e oito horas?
	No, mas...
	Ento, poderamos considerar a ideia de Harv, afinal, no tivemos lua-de-mel, e esta seria uma boa oportunidade para realiz-la  sugeriu.  Acha que Christopher pode passar uma noite com sua tia Eloise?
	Claro, eles se adoram  ela respondeu de imediato.
 Ento, est combinado! Harv, ficamos honrados com seu convite. Posso ligar mais tarde para acertarmos os detalhes?
	Sem dvida!  respondeu o amigo.
Em poucos minutos estavam a ss novamente.
	Hope  ele comeou , talvez tivesse me precipitado... Quero dizer, quer mesmo viajar? Harv quase nos forou a aceitar...
	E claro que quero!  ela respondeu com os olhos brilhando.
	Ser uma tima oportunidade para eu dedicar mais tempo a voc. Christopher me acompanha a todos os lugares a que vou desde que nasceu. Deix-lo com Eloise foi uma ideia fantstica.
	Tambm gostaria de compartilhar de um tempo s nosso. 	Richard tomou as mos delicadas entre as suas.
O corao dela parecia saltar pela boca, tal era a intensidade como palpitava. O momento em que Richard voltaria a acreditar nela estava chegando!
O empregado do hotel no sabia como agradecer a gorjeta que Richard colocara em sua mo.
	Obrigado, senhor... Se precisar de algo, basta me chamar.
	Muito agradecido, rapaz  ele retribuiu.  Estamos bem. E agora, com licena.
Richard quase batera a porta diante do garoto por distrao. Estava interessado em ficar a ss com Hope.
	Deixe-me ajud-la  interveio, ao ver que ela se esforava para colocar uma das malas no armrio.
Ao se aproximar por trs, seus corpos se encostaram, causando uma inquietao passageira. As pernas dela mal sustentavam o corpo ao simples roar de sua pele. Aquela no era a primeira vez que sentia uma proximidade maior dele, e em nenhum momento recuou. Em casa, durante o vo e agora no hotel, as agradveis coincidncias estavam se tornando frequentes.
	Estamos adiantados  ela comentou.
	E verdade. Ainda temos duas horas antes do incio da cerimnia. Gostaria de fazer algo?
Por que Richard insistia em transferir para Hope aquelas difceis decises.
Seus olhares se encontraram, e Hope sentiu os olhos castanhos em brasa. Sabia que o desejo era mtuo, que internamente o fogo da paixo ardia e incomodava, mas ela no poderia tomar a iniciativa; afinal, Richard deveria dar o primeiro passo.
	Podemos dar uma volta  ela sugeriu.  Nunca estive em Las Vegas.
Richard no fez questo de esconder uma ponta de frustrao em seu semblante, mas conseguiu contornar muito bem a situao.
 uma boa ideia  respondeu.  No h conhecimento de noite mais iluminada no mundo. So tantos luminosos e propagandas! Podemos sair agora, no cair da tarde, e, quando voltarmos, poder confirmar a minha impresso.
Bastaram poucos metros para que Hope se sentisse maravilhada com o brilho e a agitao da cidade. Caminharam por ruas e avenidas repletas de lojas e restaurantes. Foram momentos de puro deslumbramento.
Ao chegarem ao quarto do hotel, Hope no resistiu e se jogou na imensa cama de casal. Estava exausta, mas feliz.
	Esta cidade  maravilhosa!
	Sabia que ia gostar.  Ele sorriu.  Mas creio que no seja o melhor lugar para se viver.
	Talvez tenha razo. No sei se suportaria tanto movimento. 	Hope esticou os braos.  Gostaria de tomar um banho.
	Fique  vontade. Vou beber algo, enquanto est no banho. 	E saiu  procura de gelo para seu drinque.
Sem saber por qu, ela deixou escapar um suspiro de alvio. Estaria nervosa diante do prprio marido? Hope sentia a formalidade pairando no ar, e aquilo a amedrontava. Pareciam desconhecidos um para o outro, como se aquele fosse seu primeiro encontro. Balanou a cabea como se quisesse afastar aqueles tolos pensamentos. No podia negar que aquela era a primeira vez que estavam realmente a ss desde que ela fora a seu encontro logo aps a morte da me.
Abriu a mala para pegar seus pertences. Trouxera pouca coisa: apenas um jeans, camisetas, o vestido que comprara e uma camisola de seda.
Pegando o xampu e a escova de cabelos, dirigiu-se ao banheiro. Despiu-se e se colocou sob o chuveiro, deixando a gua morna aliviar a tenso. Uma sensao de alvio percorreu seu corpo. Ensaboou-se, fazendo bastante espuma, e mais uma vez deixou a gua escorrer livremente pela cabea, pelo tronco, pelas pernas.
Ao terminar, vestiu o roupo e secou os cabelos.
Ao atravessar a porta que dava para o quarto, viu Richard sentado diante da janela, com um copo de refrigerante na mo.
	Trouxe um suco para voc  ofereceu ele, virando-se.
Ficou admirado com a imagem que tinha  sua frente.
Hope  sentiu-se  completamente  nua  diante  daquele  olhar perscrutador.
	Obrigada... No vai tomar seu banho?  perguntou, como se quisesse desviar a ateno dele.
Sem responder, ele se levantou, deixando o copo sobre a mesa.
Cada passo, lento, parecia a proximidade do perigo iminente. Sem perceber, estavam a poucos centmetros de distncia. A respirao arfante foi ficando cada vez mais insuportvel.
	Gostaria de beij-la  sussurrou.  Mas temo pelo que aconteceria se assim eu agisse. No podemos faltar  cerimnia.
	Tem razo  ela concordou, com o corao palpitando forte no peito.  No podemos decepcionar nossos amigos.
	Infelizmente, isso  verdade.  Pegando o prprio roupo, ele passou por Hope, sem deixar de encostar em seu brao.  Seria bom se j estivesse vestida quando terminar o meu banho.
Seria aquilo uma ameaa? Hope pressentia que aquela seria uma longa noite.
Vestida e maquiada, tentou manter a calma ao ver o reflexo dele no espelho. Os cabelos molhados estavam mais escuros, e o roupo entreaberto deixava  mostra parte do trax musculoso. Quando Richard andou em direo ao armrio, Hope no pde deixar de reparar em suas pernas, que o roupo no conseguia esconder. Eram uma verdadeira tentao. Com medo de suas prprias reaes, correu at o banheiro e l ficou at a respirao voltar ao normal. Parecia uma tola colegial agindo daquela maneira, pensou. O mais sensato seria sair de l o mais breve possvel.
Richard terminava de atar o n da gravata. Estava magnfico. Ao colocar o batom dentro da bolsa, Hope sentiu o toque da mo dele sobre seu ombro.
	Voc est linda.  Virou-a delicadamente.  Como um anjo de Natal.
	Obrigada  disse, ruborizada.  Voc tambm est muito elegante.  E com a ponta dos dedos, ela afastou uma mecha dos cabelos escuros que insistia em cair sobre sua testa.
Com movimentos lentos, Richard pegou a mo delicada e levou-a at a boca. Um beijo sensual queimou sua pele.
	Vamos, temos um dever a cumprir  ele a lembrou.
Era uma pena. Teriam de deixar para satisfazer os desejos mais tarde.
A mesma limusine que os apanhara no aeroporto agora os aguardava na entrada do hotel. A espera deles, o casal de noivos trocava beijos apaixonados.
	Ol  Harv os saudou.  Estou guardando este champanhe para depois da cerimnia!  E apontou para uma garrafa, cuja safra Hope sabia ser especial.
Colocando a mo sobre o joelho da noiva, ele informou:
	Eles se casaram h pouco mais de um ms, meu amor. E ento, querida Hope, tem algum conselho para nos dar?
	Ora, Harv, quem sou eu para dar conselhos?
	O que mais temo  lev-lo  loucura com minhas manias  Bernardette brincou, virando-se para ela.
	Tudo pode ser superado se houver muito amor.  Hope falava como se quisesse expor seu corao.
	Concordo plenamente  admitiu Harv.  Ento, teremos um belo futuro  nossa espera.
Richard apenas se limitava a sorrir. O que estaria pensando?
A capela onde a cerimnia seria realizada era menor do que Hope imaginara, mas no menos aconchegante. Com a nave pintada de um branco maculado e as laterais adornadas por lindas pombas pintadas, o ambiente era de pura magia. Cinco fileiras de bancos de madeira de lei que ladeavam o corredor principal e o plpito discretamente decorado completavam o clima romntico.
Na entrada, o juiz -de paz os aguardava. Fora apresentado  noiva e s testemunhas. O simptico chofer da limusine entregara um lindo buque a Bernardette e outro a Hope.
As mulheres se puseram de um lado, enquanto os homens se colocaram no lado oposto. s palavras do juiz seguiu-se a msica, cantada de forma discreta pelo coral. Quando os noivos trocaram as alianas, o olhar de Hope cruzou com o de Richard, e ela pde notar um ar de tristeza nele. Por qu, se aquele era um momento de alegria?
Um beijo apaixonado selou a unio dos noivos.
	Vamos comemorar!  Bernardette exclamou.  Um grande jantar nos aguarda.
De volta ao hotel, o garom levou-os at uma mesa, prxima da orquestra. Sentaram-se, com a garrafa de champanhe ao lado.
	Espero que apreciem o cardpio que escolhi  a noiva comentou. 
Conversaram bastante durante a refeio, principalmente sobre as viagens a negcios de Harv, que nunca saa desacompanhado de seu laptop.
Hope divertia-se e ria  vontade quando desviou o olhar para Richard. Ele observava detalhadamente cada movimento seu, a ponto de intimid-la. Trocaram um sorriso cmplice.
Ao cruzar a perna sob a mesa, Hope sentiu roar na dele. Ficou encabulada.
	Com licena, amigos, mas gostaria de tirar minha esposa para danar  Richard disse, surpreendendo-a.  Aceita?  perguntou, virando-se em sua direo.
	Oh, sim, gostaria muito!
O caminho para a pista de dana tornara-se mais excitante, pois Richard encostava a palma quente da mo nas costas desnudas, a fim de conduzi-la.
Aquela era a primeira vez que danavam juntos. Quando namoraram, o tempo era gasto em longas conversas e acampamentos em reservas ecolgicas. Mas, naquela noite, parecia que haviam nascido de mos dadas, tal a harmonia com que deslizavam na pista.
O corao de Hope palpitava ao sentir o abrao dele em sua delicada cintura, e os rostos colados permitiam que a respirao arfante fosse notada sem dificuldade.
	No pude deixar de reparar como degustava sua lagosta  ele falou, de repente.
	Como assim?  perguntou, ao ter seus pensamentos interrompidos com tal comentrio.
	Bem, percebi como se deliciava ao comer cada pedacinho dela.
	E verdade  admitiu, com um leve sorriso nos lbios.  No posso negar que adoro lagosta.
	Se que saber, fiquei com inveja...
	O que quer dizer com isso?  As sobrancelhas estavam franzidas.
	Gostaria de despertar em voc o mesmo desejo,  isto o que quero dizer.
Hope sentiu o rosto enrubescer.
	Por favor, no me deixe mais encabulada.
	Ora, como posso ignorar seu jeito de usar as mos e a boca?
Aps aquelas palavras, Richard iniciou um ritual de seduo que a fazia suspirar de desejo. Com os dedos, desenhava pequenos crculos imaginrios nas costas lisas. De repente, Hope sentiu a mo deslizar pela extenso da espinha, deixando a pele arrepiada. Uma leve mordida foi sentida no lbulo direito, e a boca de Richard foi descendo pelo pescoo delicado at chegar aos lbios. Um beijo discreto fez os fez se encontrarem.
	Gostaria de t-la a meu lado a noite inteira  ele sussurrou.  O que acha da ideia?
Hope sentia-se nas nuvens diante de tal declarao.
	Diria que , no mnimo, tentadora.
	Otimo, ento poderemos comer a sobremesa e partir em seguida.
E mais uma vez, Richard a provocou com mordiscadas em seu pescoo, deixando-a ainda mais excitada.
O que poderia esperar daquela noite que tanto prometia? Teria, por fim, o sonho de um casamento perfeito realizado? Ela sabia que seus problemas no seriam solucionados em apenas uma noite, mas estava sem condies de raciocinar. Seu nico desejo era ser amada por Richard, nem que isso lhe custasse um futuro cheio de dvidas.
	Parece que o garom est servindo a sobremesa  ela observou, aps desviar a ateno por um segundo.
	Ora, j havia me esquecido do sorvete.  Richard riu.
Durante a refeio, os casais conversaram sobre diversos assuntos, mas era evidente a inquietao de Richard, o que deixava Hope mais ansiosa.
No hall do hotel, Harv combinava um horrio para se encontrarem na manh seguinte. Depois das despedidas, Richard e Hope se dirigiram ao elevador sem trocar olhares ou palavras. Pareciam perturbados como um jovem casal prestes a cometer um pequeno delito. Apenas alguns centmetros os separavam e qualquer leve movimento bastava para roarem ora as pernas ora os braos.
Richard parecia muito seguro de si ao girar a maaneta, o que no acontecia com ela, apesar de o marido ter sido bem claro em suas intenes.
Com movimentos lentos, tirou o palet e afrouxou a gravata. O primeiro boto da camisa foi aberto, e um olhar foi lanado a ela. Ainda continha o desejo de momentos atrs, mas Hope percebeu que algo havia se perdido no caminho. Ele se aproximou, a tenso era clara.
	Quero voc, Hope  Richard murmurou.  Tive de me conter at agora para no assust-la.
	No tenho medo de voc  ela respondeu, colocando os dedos sobre seus lbios, como se quisesse que ele no falasse mais.
Poucos passos foram suficientes para aproxim-los. Trazendo-a junto ao peito, Richard no esperou nem mais um segundo para beij-la com ardor. Explorando com a lngua a boca delicada, usava uma das mos para abrir o zper do vestido. Em resposta, Hope desabotoava cada um dos botes lentamente. Os olhares se encontraram e, de repente, estavam nus. O calor percorria os corpos como o fogo que devasta campos secos.
	Voc est mais bonita do que nunca...  ele falou, enquanto percorria com os olhos o corpo bem delineado.  Fico nervoso s de pensar que posso ter perdido voc para outro homem.
No, Richard no podia pensar aquilo, Hope queria gritar. No se relacionara com outra pessoa depois da separao. No poderia, pois o amava.
	Voc foi o primeiro e o nico  ela sussurrou.
Mais um beijo, e uma noite idlica estava por comear. Os abraos tornavam-se mais fortes, e as carcias, mais ntimas. Seguindo seus instintos, Hope massageava os msculos viris de maneira carinhosa e ao mesmo tempo sensual. Quando se deram conta, estavam deitados lado a lado na cama. Richard no se cansava de admirar as formas tentadoras. Com a ponta dos dedos, percorreu cada centmetro da pele alva e macia. Os movimentos lentos reagiram de forma instantnea no corpo msculo, o que no passou despercebido aos olhos dela. Como se quisesse se entregar de corpo e alma, Hope abriu os braos chamando-o para explor-la.
Aceitando o convite, Richard deitou-se sobre ela delicadamente. Com a boca vida, beijou um dos seios, sugando o mamilo, levando-a ao delrio. Com a mo acariciava o outro seio, no lhe dando trgua. O desejo crescia a cada segundo que passava. Mas, para seu desespero, Richard interrompeu de repente as carcias. Foi quando Hope notou que ele se dirigia ao criado-mudo. Ele voltou com uma embalagem aberta, e ento Hope percebeu qual era sua inteno. Aceitou a atitude com resignao, pois sempre soube que Richard no pretendia ter filhos, pelo menos voluntariamente. Ia dizer que tomava plula desde que se casaram, mas e se ele insistisse no preservativo? Seria mais uma demonstrao de desconfiana que ela no pretendia confirmar, por isso preferiu se calar.
Em segundos, seu corpo estava novamente envolvido pelo dele, a excitao de Richard pressionando suas pernas, pedindo permisso para penetrar no mais ntimo dos mundos. Hope no tinha como pensar em outra coisa alm do prazer que estava sentindo e que tambm proporcionava a ele. Abrira seu corpo e sua alma para o homem que sempre amara. O delicioso vaivm cadenciado, como em uma dana primitiva, levou-a ao auge do prazer, atingindo o clmax to almejado. Um gemido de felicidade emitido em unssono foi o sinal para se descobrir que ambos estavam plenamente satisfeitos.
Cobertos de suor, os corpos se separaram com dificuldade. A sensao de plenitude era tudo o que Hope buscava em sua vida, mas teria conseguido provar ao homem que amava que seus sentimentos eram sinceros? Teria conquistado o marido por completo? No sabia, mas qualquer palavra seria dispensvel naquele instante.

CAPITULO IX

No escritrio, Richar-d separava a correspondncia quando se deparou com uma carta endereada a Hope.
	Volto j  informou a Jane.  Entregarei esta carta a Hope.
Ao chegar  cozinha', conseguiu identificar o agradvel aroma de biscoitos de chocolate. Eram para Christopher oferecer a Papai Noel como agradecimento, quando viesse trazer os presentes. Hope desejava que a vspera do Natal fosse to marcante quanto a prpria data.
Como estava ocupada colocando os quitutes em um pote de vidro, no percebeu a aproximao do marido. Trs dias antes, dividiram a mesma cama no hotel e desde ento ele se sentia e agia diferente. As lembranas daquela noite eram to vivas em sua memria que chegavam a excit-lo. Richard aproveitou para lhe dar um beijo no pescoo quando ela distraidamente afastou os cabelos com as mos.
	Ol  ele murmurou, sobressaltando-a.  Tenho direito a pelo menos um de seus deliciosos biscoitos?
Hope se virou em sua direo.
	Ter quantos quiser  respondeu, alegre.  Sei que aprecia muito chocolate.
	Digamos que aprecio tudo o que faz e tudo em voc  falou, em tom suspeito.
Mesmo sabendo da presena de Jane na sala contgua, Richard no se conteve e beijou-a com avidez, no que foi correspondido com paixo.
A contragosto, ergueu a cabea e a fitou.
	Preciso voltar ao trabalho. Jane j vai embora, e tenho muito a fazer.  Richard falava como se quisesse justificar sua ausncia.
	Vim aqui para lhe trazer isto.  Entregou-lhe a coirespondncia.
Hope abriu ansiosa o envelope timbrado. Sabia que era algo relacionado a seu curso.
	Oh, esta  a autorizao que esperava para concluir meu curso!  exclamou, entusiasmada.  Assim poderei dar aulas e ajud-lo nas despesas da casa.
Richard no tinha dvida de que Hope seria a melhor professora do mundo, e se sentia orgulhoso em poder partilhar com ela aquela felicidade. Mas ficaria com ele depois de conquistar o to desejado diploma?
	At logo  ele disse, lacnico, afastando-se abruptamente.
	O que houve?  Hope perguntou, intrigada.  Disse algo que no devia?
	No.  E saiu, deixando-a cismada.
A preocupao estampada em seu rosto no passou despercebida para Jane.
	O que houve, Richard?
	Nada.
	Notei que, de uns tempos para c, suas atitudes mudaram. Est mais alegre, mais expansivo  ela comentou.  Com certeza essa mudana est relacionada a seu envolvimento com Hope. Mas agora, deixa o escritrio contente e volta triste! No estou entendendo nada.
	Estou tentando organizar minha vida com Hope, e todos os casamentos tm seus bons e maus momentos, s isso.
	Sei que no  apenas isso, Richard  Jane afirmou, com convico.  Conheo-o h muito tempo para saber que algo no vai bem. Sinto que luta interiormente com um inimigo invisvel. Por que no fala a respeito?
	Ningum pode ajudar.
	Nem sua prpria esposa?
	Hope  a causa de minha luta diria  disse, desconsolado. 	Nossa aproximao me causa pnico.
	Como assim?
	Meus sentimentos so contraditrios, e isso me incomoda demais. Quero t-la a meu lado, mas nego seu amor com medo de perd-la. Assim como aconteceu com meu pai, que me abandonou, e com minha me, que morreu inesperadamente.
	Entendo...  ela disse, amigvel.  E a lembrana de Davie deve atorment-lo ainda mais.
	Sim... Christopher me faz lembrar dele, apesar de ter todas as caractersticas de Hope. E seu entusiasmo por tudo  desconcertante.
	Parece que isso no o agrada, quando na verdade deveria ser fonte de alegria.
	Este  o meu dilema!  desabafou.  Sinto uma dor muito grande quando deveria sentir muito prazer em t-los a meu lado.
O dilogo foi interrompido pelo som do telefone, prontamente atendido por Jane. Pelo tom da conversa, Richard j sabia quem estava do outro lado da linha.
	 Adam  ela informou, ao recolocar o fone no gancho.  Perguntou-me a que horas volto para casa.
	J deveria estar l, Jane!  ele exclamou, categrico.   vspera de Natal, e no h nada a fazer que no possa ser deixado para depois. Pode ir, eu mesmo verificarei as outras correspondncias.
	Ento, se no se incomoda, vou para casa. Ainda temos alguns arranjos para fazer, e Matheus precisa estar bem arrumado quando os avs chegarem.  Jane apanhou a bolsa.  At mais e obrigada. Quanto ao outro assunto, ainda conversaremos sobre ele. Por enquanto, acho melhor refletir muito e no agir precipitadamente.
	Obrigado, Jane, e feliz Natal.
De cabea baixa, concentrado em seus afazeres, ele no notou quando Hope atravessou a porta com uma travessa de biscoitos.
	Ol  ela disse.  Trouxe-lhe estes biscoitos. Para voc experimentar.  Hope estava um tanto tmida.
	Obrigado  respondeu, levantando a cabea. Ao pegar um dos quitutes, continuou a falar:  Jane acabou de sair e nos convidou para irmos  sua casa amanh  noite, caso no tenha outra coisa para fazer.
	 uma tima ideia. Chris poder levar seus brinquedos novos, e eu levarei um bolo.
	Ento est combinado, sairemos perto das seis horas da tarde, Ah, j ia me esquecendo: se quiser, pode convidar Eloise.
	Sim. Afina], Eloise se deu muito bem com a me de Jane.
A noite prometia ser maravilhosa, pensou Hope. Tudo estava preparado: a ceia, as meias de Christopher. E depois do jantar passaria algumas horas ao lado do filho, contando-lhe histrias at que ele adormecesse. E, ento, quem sabe, ela no terminaria a noite nos braos de seu amado marido?
	Bem, vou preparar a mesa  ela finalizou.
	Est bem, vou recolher minhas coisas e j vou ajud-la.
Enquanto finalizava um trabalho no computador, o sinal do fax se fez ouvir, indicando que uma mensagem estava sendo recebida. Richard esperou a finalizao da operao para pegar o papel.
No fossem as primeira palavras que lera, teria levado de imediato o fax para Hope, pois a mensagem era endereada a ela. Mas o apelo de seu advogado chamou-lhe a ateno. Era uma oferta exorbitante para seu terreno no Arizona. E o advogado insistia que ela deveria aceit-la, e inclusive encaminhara cpia do contrato.
Mas aquele valor no condizia com a conversa que tivera com Hope sobre o assunto. Teria mentido mais uma vez? Richard sentiu o cho sumir sob os ps. Logo agora que tentava resgatar a confiana nela!
Decidido, tomou os papis nas mos e se dirigiu para onde a esposa estava. Teria de encarar a verdade de uma vez por todas. De sbito, parou. No seria melhor aguardar at depois do Natal? Pelo menos assim, Christopher no sofreria. No, ele no suportaria manter a farsa por um segundo que fosse, mesmo por que, o advogado fora muito claro, Hope deveria responder  proposta em vinte e quatro horas.
Seu corao apertado temia pelo que Hope responderia, apesar de ele saber o motivo de sua omisso.
Hope estava sentada na cama de Richard, com pacotes e papis de presente  sua volta. Levantou a cabea e abriu um largo sorriso ao perceber a presena do marido. Mas logo os lbios se retesaram ao notar a expresso nos olhos de Richard.
	Algo rrrado?  perguntou, aflita.
	No h nada errado  respondeu, em tom sarcstico.   apenas uma mensagem de seu advogado, fazendo uma proposta para seu pequeno terreno no Arizona.  E jogou as folhas em sua direo.
Ela pegou os papis a fim de poder l-los e levou a mo  boca. Meu Deus, ele no deve estar se referindo a meu terreno!
E muito dinheiro.  Hope estava admirada.
	No se faa de boba!  Richard lanava fogo pelos olhos.  Chega de tanta falsidade, Hope!
Ela ergueu a cabea.
	Como assim?
	Por que mentiu sobre sua propriedade?  As palavras speras saam de sua boca com dificuldade.  Foi muito ingnua
em dar o meu nmero de fax para seu advogado, se no queria que eu soubesse da verdade.
	Do que est me acusando?  Infelizmente Hope no pde se conter, e o tom de voz estava se igualando ao dele.
	Voc mentiu de novo para mim,  isso o que quero dizer!
	Isso no faz sentido!  Hope parecia desesperada.  No sabia do tamanho das terras. Tinha em mente que meus pais compraram um pequeno terreno para morarem em sua aposentadoria,  isso!
	Dez acres, Hope! Sabe o que  isso? Seria impossvel algum ter uma propriedade desse tamanho e no saber!
	Oh, Richard, nunca me interessei por essas terras!  exclamou, em tom splice.
	Espera que eu acredite em voc?
	E por que no?
	Esqueceu-se de que j mentiu para mim uma vez?  A face dele estava ruborizada de raiva. Lembrou-se dos anos em que estivera ausente da vida de Christopher.
	Richard, achei que tivesse me perdoado pelo erro  Hope tentava explicar.  No h motivos para esconder a verdade sobre o terreno. Pouco me importa seu tamanho, seu valor.
A tristeza nos olhos dela parecia verdadeira, mas...
Voc me procurou sem emprego e precisando de ajuda, Hope.
Aquelas palavras atingiram seu corao como um punhal. Erguer a cabea era como se erguesse o orgulho ferido.
	Oua bem, Richard. No o procurei para pedir ajuda. Quis apenas que conhecesse seu filho, pois achei que fosse seu direito.
 Hope no sabia de onde vinha a fora em sua voz.  E porque ainda te amo.
Quisera ele acreditar em tudo o que Hope dizia, mas a experincia do passado e suas dvidas no lhe permitiam tal complacncia.
	Ora, Hope, voc sabia que, se aproximando de mim como fez, no permitiria que nem voc nem Christopher passassem por qualquer dificuldade.
	O que quer dizer? Que teve piedade de ns?  isso?  Ela estava chocada.  Foi por isso que se casou comigo?
Richard agora pouco se importava se suas palavras a machucariam ou no. Afinal, ele tambm estava sofrendo.
	Digamos que eu queria ficar ao lado de meu filho...
Hope no estava acreditando no que ouvia. Respirou fundo e tentou se controlar.
	Pensa que eu estava desesperada  procura de um pai para meu filho?
	No sei o que pensar, s sei que voc faria tudo para ver Christopher feliz.
	Est enganado, Richard!  Como ele ousava falar uma coisa daquelas?  Nunca dividiria minha vida com um homem que s sente pena de mim.
	Como pode falar em orgulho se estava pronta para se entregar para mim a um estalar de meus dedos?
Hope empalideceu.
	Richard, est sendo cruel comigo.  Seu tom de voz era quase inaudvel.  Pensa que planejei tudo nos mnimos detalhes, como uma perfeita vigarista? Como poderia fazer isso? Mais cedo ou mais tarde, sendo meu marido, voc saberia dos detalhes da venda do terreno.
A resposta estava na ponta da lngua, parecia bvia demais.
	Ora, Hope, a venda poderia durar anos para ser concretizada. As terras tm um valor potencial muito grande, como disse seu prprio advogado. At l, seus estudos estariam concludos e, com o dinheiro em mos no precisaria mais de mim para sustent-los.
	No posso acreditar que pense isso de mim!
Nem  ele queria acreditar, mas agora suas suspeitas se confirmavam.
	Por que demorou quatro anos para me dizer que eu sou pai? Somente quando perdeu seu emprego e sua me, quando se viu desamparada, veio a meu encontro, em busca de apoio. E o pior: usou uma criana inocente como escudo para suas dificuldades, sua insegurana.
Em um mpeto, ela se levantou da cama, deixando vrias coisas carem a seus ps.
	Richard, voc est confuso. Essa  a nica concluso a que posso chegar ao ouvi-lo dizer tantas sandices a.meu respeito. Mas no pense que vou tentar convenc-lo do contrrio. Voc  muito teimoso para acreditar em mim, e eu sou muito orgulhosa para me rebaixar a tal ponto.
Passou sem olhar para ele em direo ao corredor. Desceu a escada o mais rpido que pde.
Com o orgulho ferido, Richard a alcanou e a pegou pelo brao.
	Aonde pensa que vai?
	No sei, mas aqui no posso ficar. Vou dar uma volta e espairecer. Assim, tambm, poder refletir em todas as injustias que disse sobre mim.
E, livrando-se da mo pesada, saiu, batendo a porta de entrada.
Richard refugiou-se em seu escritrio sentindo-se entorpecido. No conseguia raciocinar, apenas sentia uma dor profunda no peito.
O pr-do-sol anunciava uma noite gelada.
Olhando para o relgio, notou que era o horrio costumeiro de o filho acordar do decanso vespertino e procurar pela me. Preocupado, subiu a escada e abriu a porta do quarto.
Para sua surpresa, Christopher no estava deitado, muito menos brincando no quarto. Richard, ento, correu at o aposento de Hope, na esperana de encontr-lo. Mas a procura foi em vo, inclusive pelos dois banheiros da casa. Aflito, comeou a gritar por seu nome e descer a escada de dois em dois degraus, at alcanar o pavimento inferior. Percorreu todos os cmodos, mas no havia sinal algum de seu filho.
A porta da cozinha estava aberta. Teria ele ido para o quintal? Richard correu para a varanda e gritou o nome de seu filho.
	Christopher! Onde est voc?
Quando se deu conta, Hope estava sem flego. Correra desenfreadamente desde a casa de Richard, como se quisesse fugir de algum ou de algo. Resolveu diminuir o passo e refletir. Talvez ainda houvesse uma chance de o relacionamento entre eles dar certo. Mas, enquanto Richard duvidasse de sua palavra e no retirasse os absurdos que dissera sobre ela, nada poderia fazer.
De sbito, estacou. Passou a mo pelo rosto e respirou fundo. Precisaria encarar a realidade e enfrent-la. Decidida, virou-se e iniciou o caminho de volta.
Exausta, parou na varanda. Chamou por Richard, mas no teve resposta. Abriu a porta e deparou com o marido, plido.
	Christopher...  Ele pronunciou o nome lentamente.
	O que h com Chris? Onde est ele?  Sua voz tornou-se aguda quando percebeu a preocupao nos olhos de Richard.
	Ele... no est em casa!  Cobriu os olhos com as mos.  No posso pedir-lhe calma se nem eu estou conseguindo me conter.
Estou a ponto de ligar para a polcia ou algo parecido.
Richard j fora investigador e sabia dos perigos que uma criana da idade dele corria.
Nos trs anos de sua existncia, Hope tentara lhe mostrar os limites aos quais tinha de obedecer, mas agora no estava to segura da educao que dera a Chris.
	Diga-me o que aconteceu.
Richard andava de um lado para o outro da sala.
	Subi a escada at o quarto, mas ele no estava l.
	Talvez tenha escutado nossa discusso. Chris nao dorme todas as tardes.
Richard passou as mos pelos cabelos, a preocupao em seus olhos transformou-se em pnico.
	Mas eu o procurei por toda a casa.
	Olhou em todos os lugares onde costuma se esconder?
	Como assim?
	Ele costuma brincar de esconde-esconde no quarto dos fundos ou embaixo do escorregador. As vezes sob as camas ou dentro dos armrios.
Mal ela acabara de falar e Richard j estava no terceiro degrau.
	Ei, o menino j deve estar bastante assustado. Por favor, no piore as coisas  Hope alertou.
Richard parou, percebendo que Hope tinha razo.
	Est bem.  Engoliu em seco.  Vamos juntos.
Hope se aproximou e tocou seu brao. Um calor percorreu sua espinha. Mas deveria se conter. Seu filho estava em primeiro lugar.
	Vamos at meu quarto  ela se apressou em sugerir.
Olharam debaixo da cama, mas nada encontraram. Richard deu um profundo suspiro.
Hope lembrou-se da ltima vez que brincaram e se dirigiu ao armrio. O alvio tomou conta dela quando viu um pequeno par de meias atrs de suas roupas. Avisou Richard de sua descoberta apontando para os pezinhos. Ele teve os lbios abertos em um largo sorriso.
Com vagar, Hope afastou os vestidos e se ajoelhou no cho.
	O que est fazendo aqui?  ela indagou.
	Nada.
	No conseguamos encontr-lo. Ficamos muito preocupados  disse Richard.  No deveria se esconder de ns assim.
	Mas voc gritou com minha me  o menino respondeu, com os olhos marejados, indefeso.
	Meu bem  interveio Hope , papai e eu tivemos uma pequena discusso, foi s. No queramos assust-lo.
	Mas assustaram  ele disse, com a voz embargada.
Hope nada pde fazer, alm de abraar seu filho.
	Desculpe-nos, querido.  Passou as mos em seus cabelos para acalm-lo.
	Ainda est brava com papai?
Como poderia responder tal pergunta? No poderia mentir para ele.
	Temos muito o que conversar, meu bem  falou, em tom conciliador.  Mas prometo-lhe que chegaremos a um acordo e no vamos mais assust-lo, est bem? Agora pensaremos apenas no lindo Natal que teremos!
	Com muitos presentes?  o pequeno perguntou.
	Sim, com muitos presentes  concordou Richard, estendendo os braos para o filho.  E ento? Vamos jogar um pouco de bola enquanto sua me termina de preparar o jantar?
	Est bem  ele respondeu, correndo em sua direo.
O olhar de Richard encontrou-se com o de Hope. Nada estava acertado, e a tenso ainda dominava o ar, mas ambos fariam o que fosse preciso para que o filho se sentisse amado e protegido.
Assim que os dois saram para o quintal, ela foi at o telefone. Precisava falar com seu advogado.
Ficou feliz ao perceber que, ao terceiro toque, algum atendeu.
	Al  disse a voz do outro lado.
	Oh, ainda bem que o encontrei!
	Hope, como vai?  perguntou o advogado.  Teve sorte, eu estava de sada.
	No vou me demorar. Na realidade gostaria de mais informaes sobre a proposta do terreno. No sabia que eram dez acres
e que valiam tanto.
	Sua me e eu tambm no sabamos. Alguns meses atrs, voc talvez teria recebido um quarto do que esto oferecendo. Mas teve sorte, pois uma estrada ir passar por aquela rea, valorizando a regio. A companhia que fez a oferta quer construir um shopping center. Por isso aconselhei-a a aceit-la, uma vez que ningum mais pagar tanto pelas terras.
	Ainda no posso acreditar.
	Pois acredite. Uma benfeitoria como uma estrada pode triplicar o valor de terrenos  sua volta. Mandei um fax para que pudesse verificar os documentos e agilizar o processo. Pense bem e tente vir a meu escritrio depois de amanh. Qualquer dvida, anote-a e converse comigo. Por enquanto  s, minha querida, preciso desligar. Feliz Natal.
	Feliz Natal  ela respondeu, desligando o aparelho em seguida.
Pouco se importava com o dinheiro envolvido, estava mais preocupada com a reao de Richard.
Da janela da cozinha, podia ver os dois brincado no quintal. Tudo seria to perfeito se Richard lhe desse um voto de confiana!
Em pouco tempo a comida estava na mesa, e pai e filho entravam na cozinha.
Richard conversava alegremente com Chris, mas mal dirigia a palavra a Hope. Sabia que teriam muito a conversar aps a refeio.
Depois de se deliciarem com o peru, deixaram a mesa e foram at a lareira, pendurar as meias.
	Pronto, meu amor  ela disse.  Agora Papai Noel pode vir e deixar seus presentes.
	Est lindo, mame!  Os pequenos olhos brilhavam de emoo.  Voc me conta uma histria?
	 claro!
E se sentaram no sof, com o filho entre eles.
	...e ento, um anjo levou a mensagem do menino para Papai Noel, que satisfez seu desejo  finalizou Hope, minutos depois.
O pequeno bocejava de sono quando ela fechou o livro.
	Vamos deixar os biscoitos e o leite para o bom velhinho. Assim ele ter foras para ir para a prxima casa, certo?
	Certo, mame  ele respondeu.
Logo depois de ser colocado na cama, Christopher caiu em um sono profundo, abraado a seu urso de pelcia.
V-lo dormindo com ar sereno era tudo o que Hope pedia a Deus. Agora, teria de enfrentar outra batalha. No sabia como iniciar a conversa, por isso deixou o quarto do menino a passos lentos, e assim continuou degrau aps degrau.
Antes de encarar Richard, pegou o saco com brinquedos e distribuiu-os nas meias. De costas, percebeu que ele se aproximava. Virou-se devagar.
	Quer beber algo? Um conhaque, quem sabe?  ele ofereceu.
	No, obrigada.
Dirigindo-se at a estante, Richard se serviu da bebida.
	Foi minha culpa o que aconteceu, eu o assustei  ele disse, segurando o copo entre as mos.  No posso imaginar o que aconteceria se Chris sasse pela porta.
Hope tinha absoluta certeza de que Richard se sentiria como o nico responsvel pelo ocorrido.
	Christopher conhece seus limites, Richard, sabe que no pode sair sozinho.
Com o dedo, ele misturou o lquido.
	Pode ser, mas, quando se est assustado, tudo pode mudar. No quero que ele corra perigo a meu lado, Hope.
Sua voz era de splica, o que a emocionou sobremaneira. Estava sendo difcil manter-se afastada dele, Hope queria a todo custo acabar com a angstia em seu olhar.
Tenho de confiar na educao que dei para Chris. S assim ele se sentir seguro e confiante, protegido de todos os riscos. Pelo menos, da maioria deles.
Richard tomou o conhaque em dois goles, ps o copo sobre a estante e depois a segurou pelo brao.
	Devemos mant-lo sob viglia constante, a nosso lado sempre.
	Pelo amor de Deus, no, Richard. Ele precisa viver a vida dele.
	Droga, Hope, voc no entende!  muito fcil perd-lo, e eu no quero isso. Veja o que aconteceu hoje.
Ela sabia que aquela preocupao era proveniente do passado, do que havia acontecido com Davie.
	No se torture, Richard.
	Diz isso agora, mas no me perdoaria se algo tivesse acontecido com nosso filho.
Hope fechou os olhos, mas nem em pensamento poderia imaginar algo de ruim acontecendo com Chris, era muito doloroso. Foi ento que se colocou no lugar do marido.
Com a palma da mo, acariciou seu rosto.
	Sei o que est pensando, mas no pode querer que o passado se repita. Est sendo muito cruel consigo mesmo.
Sem palavras, Richard a beijou com sofreguido. Talvez quisesse apagar da memria as pssimas lembranas do passado. Havia paixo e desespero naquela atitude. Era um beijo que buscava ajuda, ela sentia. Seu corao ficou apertado dentro do peito e lgrimas brotaram de seus olhos.
O primeiro beijo deu sequncia a outro e mais outro. Sem perceber, estavam abraados, as carcias foram se tornando mais ntimas e a paixo explodia com toda intensidade. O cheiro do conhaque ainda era marcante, e em pouco tempo Richard a livrara de sua blusa. Com a mesma agilidade, Hope tirara a camiseta dele e desabotoara seujeans. Uma a uma, as roupas eram jogadas ao canto, enquanto se beijavam e se tocavam mais e mais.
Com avidez, a boca dele encontrou os seios trgidos. Louca de paixo, Hope arranhava as costas msculas, ansiando por mais prazer. Em pouco tempo, estavam deitados sobre o carpete. Com as pernas, Hope envolveu a cintura dele, sentndo-o penetrar suas entranhas. Um gemido de prazer tomou conta do ambiente. Ambos chegaram ao clmax simultaneamente. Sem saber por qu, lgrimas rolaram pelas faces delicadas. Seria de alegria? Ou porque sabia que aquele no passava de mais um momento de xtase? Como saber que o que sentiam era amor? Richard no tinha condies de raciocinar, apenas entregava-se sem reservas, nem exigncias. Restava-lhe a esperana de que algum dia ele confiasse nela. Mas naquele momento queria apenas satisfazer o desejo de ficar a seu lado, como um nico ser, que nunca mais se separariam.
Mas, ento, Richard a afastou com um dos braos.
 Cus, no nos protegemos!  exclamou, preocupado.

CAPITULO X

A preocupao inesperada era um sinal de que Richard ainda no recuperara a confiana na esposa. Fazerem amor naquele instante fora mais um ato de desejo incontido do que uma manifestao de sentimento e crdito nela.
Richard, estou tomando plula  informou em tom amigvel.
O silncio foi a pior resposta que poderia ter tido.
Durante o perodo em que estiveram casados, Hope aprendera a ser paciente, em uma tentativa de realizar seu to perseguido sonho de ser feliz. Era verdade que no agira corretamente ao omitir do ento namorado a gravidez inesperada, portanto, era consciente de que tinha uma parcela de culpa na desconfiana de Richard. Mas ser que no dera para perceber ainda que ela j pagara caro por seu erro? No pde conter a raiva que crescia dentro dela.
	Quando acreditar que te amo, Richard?  perguntou, em tom quase inaudvel.
A voz cortante era pior que um punhal.
	H quatro anos jurou que me amava, mas me abandonou sem maiores explicaes.
Aquele assunto voltava novamente  discusso.
	Meu amor por voc era to grande a ponto de abrir mo dele em favor de sua liberdade.
Franzindo as sobrancelhas, Richard dava clara demonstrao de indignao.
	Como pode afirmar que ter um filho seria uma priso para mim?
	Pelo menos era o que falava em relao a casar e ter filhos.
Eles no faziam parte de seus planos, de sua vida profissional que estava comeando. Eu no queria comprometer seu futuro, fazendo-o casar-se com algum por remorso ou obrigao, no seria justo. E foi pensando nisso que fiz o que fiz. Mas reconheo que cometi um grande erro, por isso trouxe Christopher a seu encontro.
	Hope respirou fundo para continuar em seguida:  Mas parece que no acredita em meu amor, e pensa que voltei por causa de seu dinheiro! Acha que no tenho respeito, pelo menos, pelos sentimentos de nosso filho?
	No venha me dizer que no sabia a respeito do terreno...
	Oh, pelo amor de Deus, Richard! Meus pais compraram as terras h anos, era a nica propriedade que minha me tinha.  Hope juntou as palmas das mos, como se suplicasse compreenso.
	O advogado, sr. Gunthry, me disse que a inesperada valorizao se deve  estrada que cortar a regio!
E tambm sobre isso no sabia, certo?
Ela respondeu negativamente com um gesto de cabea, mas no pde evitar que lgrimas brotassem de seus olhos.
	Depois de tantos anos, pensei que fosse encontrar o mesmo Richard bondoso e gentil que me amava.  Ela abaixou a cabea, em sinal de cansao.  O mesmo homem que sofreu bastante na vida, mas sempre conseguia enxergar uma esperana no fim do tnel. Mas a mim no d uma nica chance. Abre as portas de sua casa para todos, mas eu no tenho um mnimo de espao em seu corao. Aproxima-se apenas quando quer fazer amor, e, mesmo assim, no se entrega por inteiro. Pensa que no percebo, que isso no me machuca?
	No sabe o quanto di no poder confiar em voc...
	Richard, nada mais posso fazer para provar meus sentimentos. Cabe apenas a voc decidir nosso futuro. Estou cansada de lutar para ser merecedora de sua confiana e de seu amor. De nada adiantaro os meus esforos. E  uma pena, pois Christopher sente tudo o que se passa entre ns.
	Pode ficar tranquila, o que aconteceu esta tarde no se repetir.
	Nada  previsvel em nossas vidas, Richard, principalmente quando h uma criana envolvida. Qualquer um pode notar a tenso que existe quando estamos juntos.  Aquele estava sendo um dilogo franco e talvez definitivo.  A verdade  que no consigo mais viver a seu lado dessa forma, tendo que provar a cada dia o quanto gosto de voc, e no ser correspondida.
Richard a fitava angustiado, pois dentro dele tambm duelavam sentimentos conflitantes.
	Ficaremos aqui esta noite - ela continuou.  Mas amanh pela manh, partiremos para a casa de minha tia, pelo menos at encontrar um lugar para morar. Poder ver Christopher quando quiser; afinal,  o pai dele.
Richard virou-se para ela, srio.
	Se sair desta casa, entrarei com um pedido de custdia para ficar com Christopher.
Aquelas palavras eram como uma punhalada em suas costas. No havia sofrido o bastante ainda?
	O que pretende com essa atitude? Manter-nos presos a algum que no nos ama? Pensa que sobreviveremos a uma situao dessas?
Novamente ele se mantivera em silncio perturbador, aquela frieza a aniquilava. Richard insistia em manter erguidas as barreiras para separ-los. Mas as foras estavam se esgotando, e Hope no se sentia capaz de transpor qualquer tipo de obstculo. Em um mpeto, levantou-se e foi para seu quarto, pois no queria mais sofrer humilhaes.
O frio do quarto no era pior do que o frio glido que tomava conta do corao de Richard. A porta do cmodo, checou se a chave do carro estava no bolso da cala. Atravessou o corredor escuro a passos lentos. No queria que soubessem que estava saindo para um lugar a que nunca mais fora desde que Hope se mudara para sua casa.
Parecia ser a nica pessoa a circular pelas ruas na vspera de Natal. Sim, pois todos estavam com suas famlias, aguardando a data festiva.
Em pouco tempo, estava  porta do cemitrio. Desceu do carro e se dirigiu ao tmulo do filho. Parecia aliviado.
	Davie  falou, como se estivesse rezando.  Como gostaria de poder ouvi-lo, sentir sua presena. Preciso de algum para conversar, meu filho.
Mas o silncio foi inevitvel.
Richard deveria saber que o dilogo deveria ser interior, sem a interferncia de qualquer pessoa. Somente sua prpria conscincia responderia a seus questionamentos.
	Por que partiu, Davie? Por que todos que amei em minha vida partiram? No mereo ser feliz,  isso?
A fora da dor era imensa. Richard ajoelhou-se no cho pedindo que ela fosse embora junto com a solido que dilacerava seu peito. O frio e o silncio da noite o rodeavam, e ento as
lgrimas rolaram por suas faces como um rio caudaloso. Ele no pde conter a forte emoo.
 Hope est partindo...  ele murmurou entre soluos.  E nada posso fazer para impedi-la. Ela no quer mais ficar a meu lado. No me ama, pois, se amasse, no desistiria to facilmente.
Mas o que ele estava dizendo? Desde que se casaram, Hope no fazia outra coisa seno tentar provar a cada dia seu amor. E ele estava deixando escapar mais uma chance de ser feliz. Sim, havia sido por amor que ela o abandonara, queria dar-lhe a liberdade. E estava prestes a faz-lo de novo. Um relacionamento no sobreviveria a tanto desgaste, cada dia era uma batalha sem chance de vitria ou pelo menos de uma trgua. Sim, qualquer um se cansaria de uma vida assim, to infeliz. E ele estava sendo o causador de tal sentimento.
Ser que no conseguia enxergar que no poderia mais interferir no passado, mas o presente e o futuro apenas dele dependiam? No poderia abrir mo dela, do filho. Eles representavam a sua felicidade.
Olhando para o cu, Richard no tinha mais os olhos turvos pelas lgrimas, algo clareava sua viso e ele no sabia explicar o qu. Precisaria aprender a confiar novamente, teria de dizer-lhe que a amava, que os amava.
Olhou ao redor e no encontrou ningum. Teria apenas conversado consigo mesmo? Teria sido a voz da conscincia que o deixara to lcido?
De repente, o mundo ficara aberto para novos horizontes, e uma luz surgira para ilumin-lo. Ele se levantou e olhou novamente para o cu. Uma estrela parecia brilhar com mais intensidade e piscava sem parar. Esfregou os olhos uma, duas vezes, mas o brilho insistente permanecia a chamar-lhe a ateno. Sorriu e a estrela parecia corresponder. Sim, sem dvida, aquela era uma resposta positiva para suas perguntas.
Mesmo depois de tanto tempo, as lgrimas ainda escorriam pelas faces de Hope, como forma de amenizar a dor. O dilogo daquela noite a atingira profundamente, e partir era uma atitude que no desejaria tomar, mas no houvera meios de evitar tal deciso, seria melhor para todos.
O barulho do porto indicava que Richard partira. Para onde poderia estar indo a uma hora daquelas?, questionou-se.
Levantou-se e foi ao quarto de seu filho, que dormia, desconhecendo os problemas que o cercavam. Da porta, lembrou-se de que no colocara os presentes sob a rvore. Por trs vezes fez o mesmo percurso at terminar a tarefa. Insone, resolveu fazer um ch. Da janela da cozinha avistou uma estrela que parecia brilhar muito mais que as outras. Intrigada, foi at varanda. Com as mos apoiadas na balaustrada, ficou a admirar o cu estrelado por um longo tempo. E no poderia ter chegado a outra concluso: amaria Richard para sempre, estando longe ou perto dele.
"Ento por que o est abandonando?", a voz vinha de seu interior.
	Estou enfraquecida  murmurou.  No posso viver lutando contra algum que no confia em mim.
"Detenha-se apenas em am-lo, e o tempo se encarregar de mostrar a verdade."
A simplicidade da afirmao a confundiu. Seria aquela a soluo de seu problema? No estaria ela tambm criando barreiras para entregar seu corao? Conforme as ltimas palavras dele, Hope desaparecera sem maiores explicaes, rompendo um relacionamento que tinha tudo para ser eterno. Estava claro que Richard no superara a traio, sentindo-se amargurado com mais um abandono, aps ser dolorosamente desamparado pelos pais. Como poderia acreditar nela se j falhara em um momento to importante em sua vida? Era natural que ele quisesse de proteger de mais uma decepo.
Hope estivera to preocupada em fazer dar certo o casamento que no se preocupara com os sentimentos de Richard.
E se partisse novamente, estaria provando que no era merecedora da confiana dele, Richard se sentiria rejeitado mais uma vez.
	Mas ele no me ama!  exclamou em um sussurro aflito.
Estaria sendo justa com Richard, aps aquela afirmao? Pensar
na festa de aniversrio por ele organizada, sua preocupao em deix-la sempre  vontade para agir como quisesse e a forma como faziam amor, com paixo e volpia, fez surgir nela uma dvida que havia muito a atormentava: o desprezo de Richard. Existiria mesmo esse sentimento da parte dele? Afinal, ele nunca fingira ou simulara suas atitudes.
"Ento, o que vai fazer?", perguntava a voz interior, que guiava Hope em seus pensamentos.
Voltar atrs em sua deciso de partir seria o mais sensato, se no quisesse pr a perder o que tinha de mais precioso: seu amor por Richard. A conversa de horas atrs fora muito tensa, talvez uma boa noite de reflexo fosse suficiente para retomarem o dilogo e chegarem a um consenso. Sim, Hope no poderia perder aquela oportunidade.
O porto estava sendo aberto. Richard retornara de seu passeio. Foi quando o corao disparou.
Ao entrar, a primeira atitude de Richard foi correr at o quarto de Hope. Sabia que estaria l e certamente ela no tentaria uma reaproximao depois da discusso. Mas ele poderia mudar aquele quadro to negro.
Ao encontrar o quarto vazio, entrou em pnico. Foi ao quarto de Christopher e, ao v-lo deitado na cama, sentiu alvio.
Retornou  sala e percebeu luzes na cozinha e na varanda. A porta dos fundos aberta indicava que ela estava l e para l ele se dirigiu. Encontrou-a de costas, a admirar o brilho das estrelas.
	Hope?
Ela se virou, com o rosto na penumbra. Alguns passos os aproximaram e, mesmo sem saber se seria correspondido, ele pegou em suas mos. Estavam geladas. Talvez como seu corao. Precisaria implorar-lhe para no fechar as portas de seu ser, eomo ele mesmo fizera e se arrependera. Para isso, seria necessrio demonstrar todo seu afeto e carinho.
	Como posso convenc-la de que partir no  a deciso mais certa que poderia tomar?  perguntou, em um mpeto, no querendo perder um minuto sequer de sua ateno. As mos delicadas ameaavam escapar das suas.  O que aconteceria comigo se aceitasse seu amor e fosse novamente abandonado?
	Oh, Richard, eu no o deixaria por nada neste mundo!
	Mas estou muito inseguro, Hope, entenda  ele implorou.  S agora percebi o erro que estava cometendo. O que posso fazer para faz-la mudar de ideia?
Ela sorriu.
	No vou mais partir.  Os olhos brilhavam de contentamento.  No vou abrir mo de conquist-lo. Eu te amo e vou lutar por este amor, nem que ele me custe a vida, pois  ela que quero entregar a voc.
Uma ponta de receio ficou perceptvel em sua voz. Temia que ele a rejeitasse de novo. Mas como isso poderia acontecer, depois de tal declarao?
	Quero apenas seu amor, Hope. Ensine-me a viver e estaremos sempre um ao lado do outro.
	Voc... me aceita, ento?  Ela parecia sem flego, como se no acreditasse naquelas palavras.
	Sempre a aceitei, e a Christopher tambm. Somente no queria admitir, para no sofrer.  Encarou-a como se quisesse lhe transmitir sua confiana pelos olhos.  Fui cego por no perceber o sacrifcio que fez por mim h quatro anos. Mas agora quero estar com os olhos e o corao bem abertos para ver e sentir tudo, em sua plenitude.   :
Hope sorriu por entre as lgrimas.
	Pode me perdoar, Hope? Podemos comear de novo?  perguntava, splice.
Lgrimas transbordavam pelos olhos dela.
	Oh, Richard, como te amo!  afirmou, efusiva.  Mas no podemos nos esquecer do que passou. Ser sempre uma lembrana da lio que aprendemos.
	Lembrar-me de que a machuquei  uma tortura, mas tentarei encarar os fatos da mesma forma que voc: como uma
lio de vida.
	Vamos nos esquecer dos danos e nos concentrar em nossos sentimentos, est bem?
Ele abraou a mulher que amava.
	Eu sempre a amarei, Hope. At o fim de minha vida, e vou lhe mostrar que isso  verdade.
	No h o que provar, apenas me ame.
As juras de amor continuaram, at que os lbios se encontraram em um beijo ardente.
De repente, sons foram ouvidos. Seriam os sinos de Natal? Mas nenhum dos dois queria acabar com a magia do momento e o beijo se prolongou por mais alguns segundos.
Saciados, ambos olharam para o cu, com um sorriso nos lbios.
	Est vendo aquela estrela?  ele perguntou.
	Sim  ela respondeu, balanando a cabea.
	Parece estranho, mas ela me fez descobrir em tempo o erro que cometeria se a deixasse partir, como se fosse uma luz a iluminar meu caminho. Refleti muito sobre ns, sobre o que aconteceu comigo... com Davie. E conclu que no posso culp-la pelo passado, muito menos pelo futuro que eu mesmo estava enterrando. Quero uma famlia unida.  Ele virou-se e a fitou.
 E quem sabe, maior.
	Richard, tem certeza?  A pergunta mostrou sua surpresa.
Ele compreendia seu espanto; afinal, anos atrs, a ideia tambm o assustara. Mas agora, a situao era completamente diferente.
	Sim. Alm de uma companhia para Christopher, ser tambm a realizao de mais um sonho. Quero ser um pai mais participativo, desde o incio.
	Voc sempre esteve presente em meu pensamento em todos os momentos, mesmo estando longe.
Richard transbordou de alegria ao ouvir tal declarao. Nada mais restava a fazer a no ser tom-la nos braos. Hope correspondeu ao gesto, encostando a cabea no peito dele.
	Esta  realmente uma noite de milagres...  ele disse, olhando novamente para aquela estrela. Richard estava agradecido por ter nos braos seu anjo protetor.

EPLOGO

Um ano depois...
Uma garrafa de champanhe repousava dentro de um balde com gelo no criado-mudo. Richard trouxera uma bandeja com petiscos enquanto Hope tomava banho. Deitado na cama, aguardava por ela com o presente que comprara de Natal.
Quando a porta do banheiro se abriu, Richard mal conseguiu respirar. Hope surgira vestindo uma bela camisola de cetim branco. A fluidez e a transparncia do tecido deixavam  mostra os contornos que tanto o excitavam. Ele ficou com medo de que seu corao fosse saltar do peito, tal era sua emoo.
Hope enrubesceu diante dos olhares insistentes do marido. Caminhando em sua direo, apontou para a bebida.
	O que significa isso?  perguntou, como se quisesse desviar a ateno dele.
	Achei que seria uma tima oportunidade para comemorarmos  respondeu com um sorriso.  Esta  a nossa data especial.
De repente, Richard mudou o tom de voz.
	No sei se deveria, mas...  Respirou fundo, talvez para reunir foras.  Estamos to felizes que no sei se este  o momento apropriado de lhe contar tudo o que aconteceu naquela noite, vspera de Natal.
Agora, deitada ao lado dele, pousou uma das mos no peito msculo.
	J  hora de saber que pode confiar em mim, querido. Pode me falar o que o atormenta.
E Hope tinha razo, pois, no decorrer daquele ano, muito conversaram e Richard reencontrara nela a amiga de antes, em quem podia confiar seus mais cndidos sonhos e maiores temores.
	Sim,  verdade  ele concordou.  Talvez por isso tenha pensado tanto no assunto esta noite.
Encostando sua cabea no ombro dele, Hope pediu:
	Ento, me conte.
T-la em seus braos dava-lhe foras para abrir seu corao e acabar com a ansiedade que o consumia.
	Contei-lhe que fui ao cemitrio naquela noite e a estrela mais brilhante me deu esperanas e me guiou de volta para voc. O que no contei foi que ouvi uma voz que guiou meus pensamentos para o caminho certo.
Hope levantou-se e olhou seu marido nos olhos.
	Eu tambm, quando estava olhando para a estrela.  Ela pensou por um momento.  Acha que era Davie, e para mim, minha me?
	Talvez. Ou o mesmo anjo que tocou o sino. No sei. Mas sei que quero me lembrar daquela noite para sempre. Percebi que tinha que me desfazer do passado para me deixar ser amado por voc no futuro.  Ele tirou uma pequena caixa do meio dos travesseiros e ps sobre o colo dela.  Feliz Natal!
Os olhos dela encheram-se de lgrimas.
	No chore ainda. Abra o presente antes  brincou Richard.
Ela desfez o lao. Quando abriu a caixa ficou admirada. Um anel de brilhante reluzia diante de seus olhos.
	A estrela  ela adivinhou sem que ele precisasse lhe falar.
	yoc gostou?
	E maravilhoso!  respondeu, estendendo a mo.
Richard tirou o anel da caixa e colocou-o no mesmo dedo em que estava a aliana.
	Sempre que olhar a aliana, ver o brilho da estrela que nos uniu.
Hope debruou-se sobre o peito msculo e lhe deu um beijo. Richard entendeu o gesto como uma confirmao de suas palavras, mas surpreendeu-se quando, ao traz-la para deit-la sobre seu corpo, ela recuou.
	O que houve?
Hope sorriu e acariciou o rosto de Richard.
	Oh, nada, apenas gostaria de lhe dar um presente tambm. Mas  uma pena que no possa v-lo. Ainda...
	Como assim?
	Bem, e se lhe disser que no poderei beber o champanhe por, no mnimo, nove meses?
A resposta era bvia, principalmente ao vislumbrar aquele sorriso maroto e o brilho em seu olhar.
	Voc est grvida!
	Sim! O mdico confirmou esta manh. Est... feliz?
Desde o Natal anterior, conversaram muito sobre o assunto e decidiram deixar a vida tomar seu curso natural.
	 claro!  respondeu, enftico.  Mas e seu curso? Sei como  importante para voc.
	No se preocupe, o curso estar praticamente concludo antes de o beb nascer. E quanto a lecionar... comearei pelos nossos prprios filhos.
	Pelo que Christopher tem aprendido e as lies dirias que tem me dado, posso assegurar que ser a melhor professora do mundo.  E com um beijo mostrou ainda mais sua alegria.
Dessa vez, Hope no resistiu quando ele a trouxe para junto de si.
	Feliz Natal, sra. Walker  foram suas palavras ao fim do beijo.
Passando a ponta dos dedos sobre os lbios dele, Hope retribuiu.
	Feliz Natal, sr.. Walker.
Apesar de o abajur ser desligado, um brilho intenso iluminava o quarto. Os beijos ardentes eram complementados com carcias mais ntimas, e juras de amor sussurradas eram trocadas entre eles. A estrela brilhava incessante no cu e novamente o som de sinos a tocar se fez ouvir, mesmo naquela noite sem vento.
Era vspera de Natal, uma noite de amor, mgica e milagres.

FIM
